“E sua força terá arrebentado as últimas grades que prenderam, por anos, o filho do senhor Vadico”.
Terminei. Fecho o livro, Vivalei, de Luis Cruz de Oliveira, e emocionado me pergunto:
-Por que não li este livro antes?.
Mas tudo tem seu tempo e numa cinzenta tarde de sábado fui presenteado com esta pequena preciosidade devorada rápida e gostosamente numa preguiçosa rede na varanda.
Aspirante a escritor, pouco entendo sobre técnicas e estilos lingüísticos da obra que, diga-se de passagem, foi brilhantemente prefaciada pelo saudoso Nelson Damasceno; então, mais leitor que escritor, mais emoção que razão; mergulhei neste romance ambientado em cenários tão meus como a Estação e a Boa Vista, estrelado por personagens tão próximos, com quem a gente ainda tromba pelas ruas da Franca.
Terminei. Fechei o livro e não resisti; em dez minutos lá estava eu refazendo o trajeto da história: a Igreja São Sebastião, a Praça da Estação, o Coreto, a antiga Jussara...
Distraído, tentando captar na memória como era o trecho que margeava a linha da Mogiana entre a Estação e a Usina Jussara, desviei de rota. Saí da história do menino Luizinho e caí sem para-quedas na história do menino Paulinho.
Duas décadas se passaram desde os fatos de Vivalei e lá estava Paulinho em seu primeiro trabalho cobrador (o office boy de antigamente) do Escritório Labor Estação rodando com sua magrela, cobrando as escritas e descobrindo o mundo.
Passei pela pensão da Dona Maria e do Seo Anísio na General Carneiro; dobrei a Frei Germano e avistei a Tabacaria Tupi; andei mais um tanto e cheguei no Bar da Maricute e do Coelho, depois na Jussara, na Sorveteria dos Mariano, no Bazar do Sr. Napier, no Bar do Posterari, no Empório dos Batista, no Bar do Paulinho e no Bar do Natal; desci pela Evangelista passando pela Frampeças e fui parar no Bar do Sr. Télio.
E mais uma vez, pela segunda vez no dia, me emocionei. Parei o carro para ver Paulinho voando a José de Alencar ladeira abaixo com sua bicicleta verde. Ele estava sorrindo e pensando no dia em que jogaria no gol do Palmeiras.
Foi numa daquelas esquinas entre a Estação e a Boa Vista que ele encontrou um menino magrelo. O magricela carregava uma pedra na mão e os dois tramaram - cada qual no seu tempo - a melhor artimanha, a travessura inesquecível, o maior sonho capaz de arrebentar todas as grades. E ambos encontraram. Escrevendo.
Paulo Rubens Gimenes
Publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca
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