Vidente


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Houve uma época em que lecionei na pequena cidade de Cristais Paulista. Foi lá que pela primeira vez recebi a pecha de doido. Talvez, por ter-me negado cortar a fila da merenda, rejeitando exclusividade à frente, puxando de leve o cabelo de um aluno, batendo no ombro de outro, contando piadas infantis e recebendo, sempre, as gozações por torcer pelo Palmeiras. A fama de doidinho deve ter sido também por dar aula sentado em minha mesa, mesmo com a desaprovação da diretora Adriana; ou, quem sabe, por apostar corrida com meus alunos de sétima série, prometendo deixar o retardatário para fora da sala.


No começo, fiquei aborrecido com o apelido, só depois fui perceber as vantagens da qualidade atribuída a mim.Eu fazia tudo o que queria, as pessoas falavam:
- Deixa, ele é meio doido.


Tudo aquilo que eu requisitava era prontamente atendido pela coordenadora Cristina. Nem mesmo os outros professores, colegas de profissão, reclamavam. A qualidade grassou, aproveitei.


Certa feita, pediram-me que auxiliasse a professora de história a levar as crianças ao cinema. Fui. Ao descer do ônibus, identifiquei o cartaz, já havia assistido àquele filme. Um pensamento zombeteiro percorreu minha cabeça, freou, deu marcha à ré, encontrou o estacionamento vazio, fixou-se.


O meio do cinema foi local estratégico. A algazarra dos alunos era geral, mas, quando as luzes se apagaram e deram início à sessão, o silêncio, ali, poderia ser ouvido.


Fiquei à espreita, de repente, o personagem central, Hitler, subiu as escadas para contemplar o seu império arruinado. Antes que ele parasse e voltasse o rosto em direção ao público, fiz das mãos alto-falante e, usando do megafone improvisado, gritei:
—- HITLEEER!!!


Seguindo o roteiro já visto, o personagem girou o pescoço e lançou um olhar melancólico em minha direção. Após fração de segundos, dei novo berro:
—- NADA NÃO, PODE IR.


As luzes foram acesas, fui levado e interrogado em uma saleta, como pudera fazer aquilo? Contei-lhes a verdade e ri:
-Foi uma visão que tive.


Daí em diante, nova pecha recaiu sobre mim na escola, a de paranormal. Meus alunos me esperavam sentados e em silêncio, todas as minhas tarefas eram cumpridas, a fila da sopa não se formava sem que antes eu pegasse o meu prato das mãos trêmulas de dona Maria. Da diretora recebi presente: fui dispensado dos HTPs, consegui aquilo que todo professor sonha. Foi um tédio.


Depois de algumas semanas, pedi demissão. Por incrível que pareça, a coisa ficou fácil demais. Além disso, não há nada mais triste do que uma sala de aula cheia de crianças sérias.


No meu último dia, recebi um cartão de despedidas com a assinatura de todos os meus alunos, que trazia ao término:
“Com carinho, ao nosso estimado professor e vidente”.

 

Marco Antonio Soares
Professor de Lingua Portuguesa

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