A Vila Flores, antes da urbanização, era ocupada pelos campinhos de futebol. Lembro-me de um que ficava atrás da chácara do Sinhô Goulart (área adquirida por Nelson Palermo para instalar o Calçados Francano). Outro situava-se entre as ruas Saldanha Marinho e Homero Alves. E o terceiro entre a Homero Alves e o Córrego dos Bagres. Geralmente, por mais que nossas enxadas e enxadões procurassem corrigi-los, eles possuíam um considerável declive. Suas traves e travessões, feitas de bambu, não tinham rede. Não havia grama. O campo de jogo alternava-se entre manchas de capim e terra batida. À medida em que se iam erguendo as casas, os campinhos mudavam de lugar. Por fim, desapareceram completamente da região.
Jogávamos quase todas as tardes, exceto nos dias e nos horários em que o Nove de Julho (o time mais importante da área) resolvia treinar. Não havia equipes previamente formadas. O jogo começava quando dava número. A maioria não tinha chuteiras e nem camisetas. Eu mesmo usava um botinão de pneu que impunha um tremendo respeito aos atacantes adversários. Até hoje ainda me lembro de uma camiseta do São Paulo Futebol Clube, novinha em folha, vestida pelo Mazinho: era linda. A maioria jogava sem camisa e descalço. Por aqueles campos atuaram o Zé Rubens, o Bidinho, o Carlito, o Carlinhos, o Muinho, o Mauro, o Tonho Cebola, o Wanderlei, o Zezão , o Paulinho, o Robertinho, o Pistéis e muitos outros. Um dos craques que apareceu na região foi o Catito. Pequenino, descalço, sabia jogar como ninguém. Controlava a bola com arte. Habilidoso, tinha a visão e a consciência das jogadas.
As disputas começavam lá pelas 4 horas da tarde e não iam muito além das 5. Depois retornávamos às nossas casas para o banho, o curativo na unha do dedão, o mercúrio-cromo para as raladas, a salmoura para as pancadas.
Hoje não há mais campinhos e nem flores. As casas e o asfalto tomaram conta da Vila. Sobrou-nos a doce lembrança de um tempo feliz e despreocupado.
Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
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