O exemplo de Jaiter


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Minha família paterna é simples, originária da Campânia, região montanhosa e agrícola do sul da Itália. A cidade dos ancestrais - Montesano Sulla Marcellana - cento e poucos quilômetros distante de Nápoles - vista de longe parece congelada no tempo.

A população local é um agrupamento de pouco mais de seis mil pessoas, no mínimo curioso: estatura média, corpo atarracado, maioria absoluta de olhos azuis, cabelo claro e orelhas de abano. A genética explica: todos, mais ou menos próximos, são parentes.


Fiquei surpresa ao reconhecer traços físicos semelhantes nos parentes de lá e de cá - inclusive nos filhos e netos - apesar da miscigenação ao longo das gerações. (Como dizia meu pai, até com certo orgulho, sangue ‘maledetto’ de tão forte!). A semelhança não fica só na aparência, não, depois vi. Receberam-me bem, mas com desconfiança. Ao ganhar credibilidade fui convidada pelo médico local, Dottore Antonio Manilia, filhos, mulher e nona - para um jantar memorável. Tive, por algumas horas, a sensação de estar de volta a uma casa que nunca visitara antes. No final da noite mostraram-me um álbum cheio de fotos, no qual pude confirmar as semelhanças físicas dos parentes ao longo de gerações, desde que os irmãos Michele e Vittantonio (meu bisavô) vieram para o Brasil. Também em temperamento não diferimos muito. Segundo as descrições dos de lá (que batem com as de cá), somos mais ou menos assim: estopim curto e gênio do cão; trabalho não nos mete medo; conservadores nos afetos, saímos de fininho ao menor sinal alheio de desagrado; gratidão é qualidade razoavelmente comum nas personalidades, mas não sabemos perdoar. A menção da gratidão - apontada como traço de personalidade - me intrigou. Voltando, prestei atenção nas histórias contadas por tios, por minha mãe e até pesquisei as lendas da família. O universo conspira: recorte de jornal paulistano viria, logo em seguida, me esclarecer. Muito mais sensibilizada que surpresa, li sobre a iniciativa de Jaiter Maníglia. Tenho um baita orgulho em contar para amigos e conhecidos o que ele fez.


Filho de Norma e Benedito Maníglia (irmão do meu avô Nicola), Jaiter fez os cursos regulares em escola pública e formou-se médico em 62, pela USP em Ribeirão Preto. Enquanto estudava dava aulas à noite para auxiliar no orçamento. Terminada a universidade (nos primeiros lugares) foi para os Estados Unidos, tornou-se cirurgião de cabeça e pescoço. Lecionou e trabalhou em grandes hospitais de Cleveland, New York e Miami. Muito tempo depois, voltou a Ribeirão Preto. Examinou os projetos da faculdade e decidiu doar US$ 85 mil que, somados aos recursos da universidade e da FAPESP, permitiram na ocasião, benefícios para a escola. Na época foi a maior doação em dinheiro já recebida pela USP e uma das maiores já feitas a uma faculdade pública. Soube da história através de texto publicado por jornal de outra cidade cujo recorte guardei: o gesto inusitado foi discreto - acho que nem entre familiares circulou. Tive orgulho do primo e o admirei. Fora dos limites brasileiros é até comum, mas por aqui não sei de gesto semelhante. Nunca soube partir de qualquer ex-aluno brasileiro uma atitude semelhante de reconhecimento para com sua escola - pública ou privada. E não me excluo: nunca doei um livro sequer para contribuir com as escolas em cujos bancos me formei. De qualquer forma a gente aprende uns com os outros e essa é uma boa oportunidade para imitar um gesto admirável.


Ridicularizam minha insistência quanto à presença do sobrenome de solteira, mesmo com a imposição social do uso do outro, adquirido pelo casamento. Não me importo: tenho prazer e orgulho em me saber e sentir pertencente à família de origem, meu clã de nascimento, minha tribo... especialmente quando sei de atitude generosa e ímpar como a de Jaiter. Insisto em divulgar que pertencermos à mesma família, mesmo distante dele no que diz respeito à capacidade de reconhecimento e gratidão.

 

SINAIS
Mãos longas e finas indicam temperamento artístico. Pessoas ruivas são temperamentais. Quem aprende devagar se lembra melhor que quem aprendeu depressa. Quem não olha o outro de frente é desonesto. Queixo sumido denota falta de força de vontade. Pessoas loiras são menos sinceras que morenas. Gordos são gente de boa paz. Orelhas pontudas na parte superior indicam esperteza, egoísmo e até desonestidade. Rugas nos cantos dos olhos revelam o senso de humor da pessoa. Cabelo encaracolado é sintoma de exuberância e vitalidade. Testa alta e saliente: sinais de grande inteligência. Mãos frias revelam disposição afetiva. Certo ou errado?


SURPRESA!
Nunca devemos substituir a observação direta por falsos conceitos: tais afirmações, utilizadas outrora como parte do teste no julgamento do caráter de candidatos a empregos, são todas - sem exceção - falsas, garantem os cientistas que o inventaram. Para mim, as duas últimas estão corretas. A letra do baião afirma ‘cabeça grande é sinal de inteligência’ e todo mundo repete: ‘mão fria, coração quente’. É ou não é?


INVICTUS
Título do magnífico filme de Clint Eastwood com Morgan Freeman no papel de Mandela, é poema do inglês William Henley, nascido em 1849. Mandela o lia, na prisão, para seus companheiros de cárcere. Fala do desafio da permanência da honra e da vontade inquebrantável diante das vicissitudes. São palavras finais: ‘Por ser estreita a senda - eu não declino, nem por pesada a mão que o mundo espalma: eu sou senhor do meu destino; eu sou capitão da minha alma”.

 

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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