Meu avô Septímio


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Acalento há bastante tempo a vontade pessoal de escrever algumas linhas sobre o meu avô materno, Dr. Septímio Salerno. Reconheço que ele marcou profundamente a minha vida e de muitas outras pessoas que o conheceram e com ele conviveram. Tinha uma maneira honesta e determinada de ver, encarar e viver a vida. E reverenciá-lo aqui não é questão eminentemente pessoal.


Cirurgião-dentista de profissão mas extremamente autodidata, fez da sua vida um encarar constante de desafios e de serviços ao próximo. Nasceu no final do século XIX, na cidade mineira de Cássia, filho de imigrantes Italianos. O pai, Rafael Salerno, foi sapateiro; a mãe, Rafaela Salerno, dedicada dona de casa.


Como todo filho de imigrantes do final do século XIX, passou por grandes e severas dificuldades. Casou-se com a minha avó Mariana. Tiveram 4 filhos, Elza, Zara (minha mãe), Alberto e Zélia. Destes, apenas minha tia Zélia ainda se encontra entre nós.


Além da Odontologia viu-se obrigado a prestar primeiros socorros a pessoas enfermas e desvalidas. A cidade onde residia não dispunha, em sua época, de serviço médico efetivo e suficiente. Foi, sem dúvida, algo próximo do que hoje se costuma chamar de paramédico. Salvou várias vidas, especialmente de crianças, fato de conhecimento público.


Também atuou por muito tempo como Promotor de Justiça ‘ad hoc’. Era um orador nato. Participou em vários e memoráveis casos levados ao Tribunal do Júri. Tinha clara e manifesta paixão pelo Direito. Foi, sem dúvida, meu maior incentivador.


Quando colei grau na Faculdade de Direito recebi dele um cartão manuscrito cujo texto encerrava-se com uma frase marcante: ‘faça do Direito um instrumento de justiça, especialmente de justiça social’.


Na política local foi imbatível. Nunca postulou para si um cargo pessoal, mas ajudou a eleger vários.


Foi amigo fraterno de grandes expoentes da política mineira, especialmente dos líderes do antigo PSD e posteriormente do MDB. Destacava-se entre eles, Tancredo Neves, com quem sempre manteve estreitos laços de amizade. Foi sempre impecável no falar e no trajar, mas principalmente irrepreensível na maneira ética, fraterna e solidária de agir em todas as suas iniciativas.

Exatamente por isso foi sempre respeitado, e muito, até pelos adversários políticos com os quais sempre manteve relações de cordialidade e respeito. Dizia sempre: ‘adversários sim, inimigos nunca’.


Exerceu, em tudo o que fez, uma liderança positiva, que emergia naturalmente da sua forma simples de ser e ver as coisas. Espírita convicto. Ele sempre demonstrou grande devotamento às causas de interesse público e de caráter filantrópico.


Teve uma existência terrena longeva. Faleceu 8 meses antes de completar 100 anos. Foi para mim e para muitos outros um exemplo de ser humano. Peço venia aos leitores do Comércio. Eu tinha que fazer este registro, embora reconhecendo que o faço com certo atraso. Nunca, porém, é tarde para se prestar justa e merecida homenagem e reconhecer os valores de um ser humano, na verdadeira acepção da palavra. Gente assim faz falta à humanidade.

 

Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca

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