Mania de grandeza


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Um dos graves problemas do Brasil é a mania de grandeza. Enquanto a malha viária brasileira apresenta graves problemas estruturais, nos rincões do país, sem receber investimentos significativos a não ser as “operações tapa-buracos”, o governo federal tenta alavancar a construção de uma linha de trem-bala entre São Paulo e Rio de Janeiro. Não seria estranho se a obra fosse financiada e executada pela iniciativa privada, que iria ainda operar o sistema. Porém, o trem (conhecido como TAV, ou transporte de alta velocidade), segundo o governo, terá um custo de R$ 33 bilhões. Grande parte deste valor deverá ser financiado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), sendo que o consórcio ganhador da licitação aplicará parte do dinheiro. Defendido pelo governo federal como uma obra necessária (já com vistas à Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016), uma análise ainda superficial mostra que não é bem assim. Para completar: o governo não vai cobrar PIS/Pasep e Cofins da empresa que operar o TAV em 2015. Com isso, quer obrigar a concessionária a baixar o preço do bilhete ao passageiro.


Deve-se lembrar que, ao longo dos anos, a malha ferroviária do País vem sendo abandonada e, nos últimos tempos, nossos governantes só se preocupam em fortalecer as regiões de seus aliados. Por isso, surgem obras como a ferrovia Norte-Sul (que foi iniciada no governo de José Sarney, em 1987, mas que teve apenas 215 quilômetros construídos nos dez anos seguintes). Se concluída, ela deverá ter 1.980 km e cortará os Estados de Pará, Maranhão, Tocantins, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul, interligando-se com outras ferrovias em todos estes Estados. A exploração para o transporte de passageiros será muito difícil. É importante ressaltar que antes do trem-bala há que se buscar solucionar os problemas verificados na malha rodoviária brasileira, principalmente no quesito de segurança para os que utilizam das rodovias em todo o País.


No Estado de São Paulo o sistema de pedágios foi responsável por revolucionar as estradas principalmente no Interior, onde a malha apresentava problemas gravíssimos que comprometiam a segurança das viagens de milhares de automóveis. Depois do pedágio, a pavimentação melhorou e procedeu-se à duplicação das principais vias. Mas isto não se vê no resto do País, muito menos nas estradas federais. Essas continuam aquém do mínimo. Quanto ao transporte aéreo também enfrenta gargalos que devem ser eliminados, já que os atuais aeroportos em operação estão no máximo de sua capacidade e urge ampliar o seu número. Esta é a primeira necessidade, muito antes deste trem-bala que tem tudo para se tornar um novo Trem de Prata, que circulou entre Rio e São Paulo por apenas quatro anos (1994-1998) cobrando uma passagem mais cara do que na ponte aérea. Então, já é hora de o País deixar de lado a mania de grandeza e partir para o que realmente interessa: corrigir os erros que existem e, somente depois disso, partir para uma empreitada que, com certeza, vai se refletir no bolso dos brasileiros que pagam seus impostos e, em sua maioria, não serão beneficiados com uma obra cuja urgência e necessidade ninguém ainda provou.

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