O concreto de uma ponte por onde passam centenas de carros diariamente é o teto. O piso é um patamar existente na margens do Córrego Cubatão na Avenida Ismael Alonso y Alonso debaixo da ponte. É neste espaço com pouco mais de um metro de altura que alguns dos ex-moradores do Piscinão - subsolo de um prédio inacabado na Avenida Major Nicácio - encontraram um novo lar após terem sido obrigados a deixar o local depois que ele foi aterrado em fevereiro.
Na ponte, que está ao lado de uma loja de materiais de construção, valeu o improviso. Aproveitando-se de dois vãos existentes, os moradores colocaram oito camas - quatro de cada lado - para terem um pouco de conforto, além de espalharem tendas para garantir privacidade. “Parece que o lugar foi feito para isso”, comenta o morador de rua que se identificou apenas como Lucivaldo, sobre a funcionalidade da ponte como abrigo. Segundo ele, não se passa frio no local. “É muito sossegado. Só escuto a água do córrego rolando”.
Aparentando ter mais de 40 anos (ele não revelou a idade), Lucivaldo, que disse ter vindo de Goiânia, dormia quando a reportagem bateu palmas para ter a primeira conversa, na manhã de ontem. De acordo com Goiano, como é mais conhecido, apesar de haver oito camas no recinto, nem todas são ocupadas.
Normalmente, Lucivaldo pede esmola nos sinaleiros da Alonso y Alonso, além da Major Nicácio, de onde tira dinheiro para comprar cigarro, uísque e comida. “A vida na rua é um vício”. Reticente em dar mais informações à reportagem, ele preferiu consultar primeiro seus companheiros de casa. “É a regra das ruas. Preciso falar com o ‘Vida Loka’ antes de continuar. Vocês voltam (sic) aqui depois”, disse, explicando que “Vida Loka” seria o chefe do grupo.
No segundo encontro, no final da tarde, além de Goiano, estavam outros dois moradores que se identificaram como Vinicius e “Vida Loka”. Em março deste ano, quando o piscinão foi aterrado, este último chegou a receber duas ofertas de tratamento contra o vício em crack, mas não aceitou.
Revoltado com a presença da reportagem, ‘Vida Loka’ não quis dar entrevista. “Pra tirar a gente daqui só derrubando a ponte”, disse, com medo de que, com a divulgação do novo endereço, os policiais cheguem para expulsá-los novamente. Ele ainda comentou que gostaria de ter um emprego. Questionado sobre a possibilidade de morar em outro lugar, afirmou que a ponte é sua única opção.
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