Assisitir a uma Copa do Mundo ao vivo é um sonho de quem gosta de futebol. Cobrir o maior evento do esporte em todo o mundo é uma ambição de todo jornalista que atua no setor. O repórter Rodolfo Tiengo Fernandes, 25, e o fotógrafo Marcos Antonio Limonti Filho, 20, profissionais do GCN Comunicação, alcançaram estas conquistas. Foram os únicos representantes de órgãos de imprensa regional do interior do País a cobrir com fotos, textos e áudios o Mundial realizado na África do Sul.
A dupla passou 78 dias em solo africano. Sem contar os correspondentes internacionais que estavam baseados no continente, dificilmente, algum outro jornalista tenha ficado em cobertura na terra de Nelson Mandela por tanto tempo este ano. Eles desembarcaram no país da Copa no dia 30 de abril. Depois de conhecerem a dura realidade dos sul-africanos, de acompanharem treinamentos, entrevistas, jogos e de se decepcionarem com a seleção brasileira, Marcos Limonti e Rodolfo Tiengo retornaram para o Brasil no dia 14 de julho.
Aos 25 anos, Rodolfo Tiengo, após trabalhar como jornalista em São José do Rio Pardo, escreve reportagens para o Comércio há dois anos e três meses. Embora jovem, Marcos Limonti já soma três anos e meio de atuação no Comércio da Franca. Começou a emplacar as primeiras fotos no jornal quando tinha pouco mais de 16 anos. A dupla, agora, já colocou no currículo a experiência de cobrir uma Copa do Mundo. E que experiência!
Na segunda-feira, ambos retomaram suas atividades na redação do GCN com muitas histórias para contar. A experiência bem que renderia um livro. Nem Mick Jagger, o pé-frio oficial da Copa, assistiu a tantos jogos quanto eles. Limonti assistiu a dez partidas, incluindo todas as do Brasil. Tiengo viu seis jogos. Sem a credencial oficial da Fifa, normalmente emitida para a imprensa habituada a cobrir a competição, eles tiveram que se desdobrar para mandar fotos e textos para o Brasil. Tiengo acumulou duas expulsões de estádios.
As dificuldades para acompanhar jogos e treinos foram grandes, mas não as únicas. Como as partidas aconteciam em cidades diferentes e distantes, a locomoção na África foi outro grande obstáculo. Tiveram dias em que, às 22h30, ainda não sabiam ondem iriam dormir. E a alimentação? Marcos Limonti nem pode mais ouvir falar em batatas. E tome vuvuzela nos ouvidos.
Obstáculos à parte, Tiengo e Limonti são unânimes em afirmar que a aventura na África foi um aprendizado que vão levar para o resto da vida. Nesta entrevista, eles falam sobre a emoção de ver um gol do Brasil dentro do estádio e contam uma lição trazida do convívio com os africanos: “Eu posso não conhecê-lo, posso não saber o que você faz e nem o que você tem, mas se está precisando de alguma coisa, eu vou ajudá-lo”.
Comércio - Por que vocês foram para a África dois meses antes da Copa?
Tiengo - Foi para treinar o inglês, facilitar o processo de adaptação, conhecer o País e, depois, fazer o trabalho de cobertura da Copa. A primeira parada foi na Cidade do Cabo. Ficamos um mês lá, na casa de uma família.
Limonti - Vejo que foi um mês muito importante. Diferentemente dos outros jornalistas que foram para a Copa, nós já estávamos adaptados ao país durante a competição. Valeu muito ter ido antes.
Comércio - O trabalho de cobertura da Copa começou quando?
Tiengo - Na realidade, a partir do momento em que chegamos lá, já começamos a fazer o nosso trabalho e produzimos matérias para o jornal, rádio e blog.
Tiengo - Fomos para Joanesburgo, que era a cidade estratégica, onde tudo acontecia
Limonti - Lá aconteceu a maior parte dos jogos, tinha dois estádios e a sede do comitê da Fifa. Chegamos lá uma semana antes da Copa e ficamos um mês. A partir do jogo do Brasil com Portugal, começamos a viajar pelo país. Fomos para Durban, que era muito longe, para Porto Elizabeth e, novamente, para a Cidade do Cabo. Depois, retornamos para Joanesburgo para ver a decisão.
Tiengo - Eu acabei não vendo a final...
Tiengo - Eu estava sem ingresso. O segurança viu que eu estava sem a credencial e me colocou para fora...
Limonti - O estádio Soccer City é uma cidade, você passa por várias catracas. Eu passei pela primeira e o Tiengo ficou. Não consegui passar pela próxima e fiquei na sala de imprensa. Quando acabou o jogo, eles abriram e eu tive o acesso liberado. Acompanhei a cerimônia de premiação de muito perto.
Tiengo - Eu assisti a seis.
Limonti - Dez, todos os do Brasil.
Tiengo - Eu só não vi o jogo do Brasil contra o Chile. Na partida contra Portugal, eles me colocaram para fora...
Tiengo - Eu tinha conseguido entrar, mas eles me expulsaram de novo. Eu estava com uma credencial provisória da Fifa, que permitia a entrada no estádio, mas só para o dia anterior. Por um descuido da organização, eles colocaram a data do dia anterior e a do jogo. Assim, entramos no estádio, mas na hora de retirar o ticket, o cara viu e brecou...
Limonti - Eu me escondi no banheiro para o segurança não ver. O Tiengo teve de sair e eu consegui entrar.
Tiengo - Ah, se foi. Tentamos obter a credencial emitida pela Fifa com antecedência, mas não conseguimos. É algo muito disputado. Geralmente, só a grande imprensa consegue.
Limonti - Ficamos em um albergue, dividindo um quarto com seis pessoas. No nosso quarto, passaram gente do México, da Turquia, Estados Unidos, Argentina. Havia jornalistas e torcedores.
Tiengo - A cama era com um espumão grosso...
Limonti - Parecia cama de presídio. O banho, tinha dias que era frio, gelado.
Limonti - Ficamos lá 20 dias. Tinha dias que a gente acordava e não sabia onde iria dormir. A gente liga o GPS e saiu procurando alguma instalação. Teve um dia, que eram 22h30, e a gente não tinha lugar para ficar. O pior é que nem a matéria a gente havia enviado para o jornal. Acabamos ficamos em uma daquelas casas que são alugadas para hospedar os visitantes.
Tiengo - Foi uma sensação de você estar em um lugar em que todo mundo gostaria de estar naquele momento. Senti-me privilegiado, principalmente, por ser na África. Não foi mais uma Copa, mas uma competição totalmente especial. A emoção foi muito grande.
Limonti - Eu tive dois sonhos de criança realizados. Um era conhecer a África. O outro era fotografar uma Copa do Mundo. Foi uma experiência que ficará marcada para sempre. A Copa é passageira, mas o que aprendemos com o povo africano será um aprendizado eterno. Isto marca muito.
Limonti - O maior aprendizado é que eu posso não conhecer a pessoa que está do meu lado, mas tenho de ter a consciência de que é um irmão e que preciso ajudar e fazer com que ela sinta-se bem do meu lado. Foi o que aconteceu lá. A gente estava em lugares diferentes, não sabia o que fazer e tinha um africano do nosso lado que nos tratou como irmãos. O cara ajudou a gente muito e, no final, nos disse que precisamos tratar as pessoas como se fossem nossos irmãos.
Tiengo - A filosofia que eles seguem é a seguinte: eu posso não conhecê-lo, não saber o que você faz e nem o que você tem, mas se está precisando de alguma coisa, eu vou ajudá-lo.
Limonti - Vimos muito isto lá. Os caras são pobres, humildes, mas são muito unidos. Eles nos acolheram muito bem.
Tiengo - Foram momentos simples, mas que tocaram. Em alguns momentos senti uma mistura de culpa profissional com emoção. Na Cidade do Cabo, fomos conhecer a casa de uma família que ficava próxima a um estádio de treinamento que a Fifa estava construindo. Os moradores teriam de sair de lá, seriam despejados. Conhecemos a dura realidade deles. Aquele momento me emocionou muito. Algumas pessoas chegaram a falar para a gente não ir lá que arrumaríamos encrenca...
Limonti - Pediram para a gente ter cuidado e não levar os equipamentos...
Tiengo - Acabamos indo e fomos bem recebidos. Aquilo me tocou muito. Também me emocionou conhecer um senhor de idade, muito simples, que catava lixo e estava trabalhando de ambulante para poder sustentar a mulher e três crianças.
Limonti - Foram muitos momentos. No jogo entre Brasil e Holanda, eu estava com dois ingressos e decidi dar um para alguma pessoa pobre. Primeiro, ofereci para um menino. Ele disse que tinha vontade de ver um jogo, mas que não poderia entrar, pois tinha de trabalhar do lado de fora para dar dinheiro para a mãe em casa. Isto me chocou muito. Logo, encontrei um cara que estava sentado cabisbaixo. Era um homem que morava próximo, viu o estádio ser construído e que nunca tinha entrado lá. Dei o ingresso, ele ficou muito feliz, mas não conseguiu falar nada. Apenas abriu um sorriso e saiu correndo para pegar a fila e entrar. Eu queria falar com ele depois, ver o que achou do jogo, mas não tive mais contato.
Tiengo - Na hora, a gente fica triste, porque torce muito, vibra, mas a ficha demora a cair de verdade. Até vi uma situação absurda depois do jogo. Tinha um menino sul-africano chorando e um grupo de brasileiros fazendo farra. A gente já sabia que a seleção não estava bem e que, dificilmente, chegaria à final. De qualquer maneira, você se decepciona.
Limonti - Foi muito bom, marcante. O primeiro contato que tive com a seleção foi durante a entrevista coletiva do Kaká. Fiquei a poucos metros dele. Na hora você não tem a dimensão daquilo. Teve um treino em que o Daniel Alves se machucou e eu fiz a foto. Foi uma situação simples, aparentemente banal. Dali a pouco, toda a imprensa internacional estava divulgando o fato. Foi uma grande repercussão e a gente estava fazendo parte daquele momento. Quando o Brasil foi desclassificado, imaginei que fosse apenas uma derrota. Ao chegar no hotel, todos os jornais e sites do mundo estavam divulgando que o Brasil estava fora. É nesta hora que a gente tem a dimensão do tamanho que é uma Copa.
Tiengo - É muito emocionante. Eu gritei demais. Ver um gol no estádio é maravilhoso.
Limonti - Sou muito mais pela TV, não tem emoção. Tudo acontece muito rápido. Para mim, foi diferente, pois na hora do gol, quando a torcida explodia, era o momento que eu tinha que fotografar. Não tinha como gritar. No gol do Elano contra a Coreia (do Norte), eu soltei a voz quando o estádio inteiro já estava calado.
Tiengo - A distância da família, da namorada.
Limonti - A distância, realmente, atrapalha. É muito tempo, mas acho que os problemas maiores foram a questão do transporte e a falta de estrutura. Lá era tudo muito longe.
Limonti - No primeiro dia, é legal, bacana, no segundo também, mas no terceiro já começa a incomodar. No estádio, não tive problemas. Achei legal. A vuvuzela é uma febre lá. A gente estava caminhando pelo shopping, quando aparecia um cara do nada e já “estourava” a vuvuzela. Daí, vira o shopping inteiro tocando. Nestes momentos, era ruim.
Limonti - Muita batata, os caras comem demais lá. É batata frita, purê. É tudo baseado em frango ou batata. Comi pouca coisa exótica.
Tiengo - De vez em quando, eu tentava fugir desta alimentação e comprava uma salada ou um pão.
Tiengo - É aquele tipo de experiência que você vai contar para os filhos, para os netos, vai mostrar fotos para todo mundo. Foi uma coisa que valeu uma vida. Valeu demais.
Limonti - Foi uma experiência e tanto. Para mim, acho que mais ainda, pois completei meus 20 anos lá. Foi muito bom. Imagine comemorar o aniversário na África. Foi no dia da semifinal. Comprei o ingresso com a esperança de ver o Brasil, mas acabei tendo de assistir à Holanda.
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