Na última quinta-feira, já entrado no clima de comemoração pelos 40 anos de vida literária, Luiz Cruz de Oliveira esteve no Café do Comércio para uma conversa que durou duas horas. Trajando camiseta na sua cor confessadamente preferida, o vermelho, e estampando na face o sorriso de quem se permite celebrar a publicação de 27 livros, falou de sua carreira de escritor, do seu processo de criação, do relacionamento com os leitores, de estilo e influências, da evolução do indivíduo que se reflete no conjunto da obra, de emoções, de seu personagem Franco, cujas peripécias os leitores acompanham nas páginas do caderno Nossas Letras, e da festa que os amigos prepararam para este final de semana. Indignou-se contra o poder público que não tem um olhar minimamente cuidadoso em relação à produção literária francana. Deixou também desvelado que a gratidão é um dos sentimentos que ajudam a defini-lo.
Comércio da Franca - Por que e quando escrever?
Luiz Cruz - Para desabafar, por necessidade de trazer para fora o que germina e cresce. Quando a angústia beira o insuportável. É como um parto: tem de colocar para fora. É escrever ou morrer.
CF - É escrever e desnudar-se.
LC - Sim, por isso digo que escrever é ato de extrema coragem. Ficamos nus diante do leitor. Ler uma obra de ficção é conhecer os recantos mais íntimos da alma do autor, às vezes desconhecidos até dele próprio. Não se pode ter pudores.
CF - Outra Janela em Graciliano é o nome de sua primeira publicação, há 40 anos. O autor de Vidas Secas é seu modelo de escritor?
LC - Quando comecei a escrever, busquei nele um modelo, porque o admirava e continuo admirando. Acho que mirei a profundidade de Graciliano Ramos, conjugada à clareza de Manuel Bandeira. E também à de Vinicius de Moraes. Foram autores que me inspiraram.
CF - Concisão, clareza... e densidade, pois seus enredos e personagens são densos.
LC - Procuro sempre maior profundidade, é uma busca constante. Um treinamento. Ainda não consegui treinar com precisão as ferramentas.
CF - Isto é modéstia.
LC - É consciência que tenho de que sou limitado.
CF - Como é escrever para o leitor de jornal?
LC - É experimentar a possibilidade de uma comunicação mais ampla. A crônica condiciona um tipo de discurso que permite maior espontaneidade. Ela elimina um defeito do professor de Português que é exigir na escrita formas que não têm correspondência no coloquial. Tenho procurado prestar ainda mais atenção à fala do nosso povo para traduzi-la em minhas crônicas.
CF - O Franco tem dado retorno?
LC - Muito. Outro dia me ligou um leitor me perguntando aflito se eu tinha matado o Franco, pois naquele sábado eu havia interrompido a série com o personagem.
CF - Por quê?
LC - Havia sentido uma necessidade premente de escrever sobre algo que estava me incomodando. Precisei parar e colocar para fora.
CF - Depois voltou ao Chico Franco...
LC - Voltei e logo no dia seguinte um homem que pilotava uma bicicleta parou ao meu lado e pediu: “Coloque o nome de meu pai na história do Franco. Foi meu pai quem ensinou o Dênis” (Dênis é um personagem usado na composição do Franco).
CF - Você gosta deste retorno do leitor?
LC - Gosto muito! É um apoio. Nunca me esqueço de alguns, especiais. Um dia, numa das edições da Feira do Escritor Francano, no Shopping, um homem se aproximou, apresentou-se como juiz em Poços de Caldas e falou: “Cruz, Vivalei é sua obra-prima.” E há muitos anos, em Brasília, outro leitor, por coincidência também da área do judiciário, me abordou e disse que o romance Deuses Mutilados era a maior homenagem que um filho poderia ter prestado a seu pai. Ambas são lembranças boas, ajudam a prosseguir.
CF - Fale um pouco sobre Deuses Mutilados.
LC - Foi um livro difícil de escrever. E mesmo não tendo nada a respeito de meu pai, é inteirinho sobre ele.
CF - Um livro mais fácil de parir.
LC - Bilhetes. Saiu rápido. Coisa de semanas. Já tinha vários pequenos textos e fui organizando, ao mesmo tempo em que ia criando outros.
CF - E seu processo de criação, como acontece?
LC - Antes me acompanhavam cigarro e café. Parei de fumar, ficou o café. As idéias costumam surgir à noite, ou enquanto caminho. Quando vou almoçar, sempre no mesmo restaurante, enquanto espero rabisco os esquemas que depois desenvolvo. Em casa não escrevo, não consigo. É telefone que toca, é gente que chega, não dá.
LC - Música. Ouço música o tempo todo. Música antiga: Maísa, Sílvio Caldas, Nelson Gonçalves... Quando vem a necessidade de botar sentimentos para fora, ouço Maísa, por exemplo. Foi assim que escrevi a cena da morte do irmão do narrador em Deuses Mutilados, ouvindo Maísa no restaurante de um shopping em Brasília e chorando muito. Anos depois reli o trecho, voltei a ficar comovido.
LC - Só depois de dez anos de publicação.
LC - Às vezes gosto, outras não. E penso que tudo tem de ficar como na primeira edição. Mexer seria falsear a história. Penso que um livro é o retrato do autor naquele momento. Ele vai mudando, sua escrita também. A ponto de eu não conseguir concluir um romance inacabado chamado Viagem para Vega. Aquele Cruz daquele romance é diferente do de hoje; impossível retomar, transcorrido muito tempo.
LC - Lineu Vasconcellos Lemos; sou muito grato a ele. Trabalhamos juntos na Casa Higino, depois no Banco do Brasil. Ele foi também meu professor de francês. Quando publiquei Vida Só, com a ajuda de colegas, lançamento muito simples na cantina do Banco, Lineu falou: “Não sei se o livro tem qualidades, porque ainda não o li, mas o fato de escrever, de publicar, por si só tem muito mérito.” Até hoje esta frase me impulsiona.
LC - Contra o poder público, que não dá a mínima atenção para a literatura francana. Sonho com uma casa que pudesse acolher a produção dos escritores, seu legado. Não há nada a respeito na cidade, sequer um projeto, uma semente...
LC - Com alegria; pedi aos amigos que a organizaram que levem violão para a gente cantar juntos. Vão expor meus livros, vamos conversar assim como estamos fazendo agora...
LC - Salva o escritor que libera suas angústias. Salva o leitor que se identifica com estados de alma de personagens e narradores, especialmente em momentos nos quais se sente muito desamparado.
Exposição: Café com Prosa
Lançamento: Cantos e desencantos
Quando: de 24 a 31 de julho (hoje e amanhã, com a presença do escritor)
Onde: Ave, Palavra! (Rua Campos Sales, 1510 - Centro de Franca)
Horário: das 9 horas às 15 horas
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.