Bocadinho de Memória


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Há algumas décadas, era o chofer de praça que ficava horas e horas à espera de um freguês. Enquanto esperava, cochilava. Na atualidade é o corretor que fica dias e dias à espera de uma transação a profissão está mais inflacionada que o mercado no tempo do presidente Sarnei.

Por isso, enquanto espera, o corretor Ronan inferniza, com perguntas, a vida do Chico Franco, a quem já se apresentou cinco vezes na última meia hora.

- E aí, hein, Sô Chico. Acabou a Copa, agora vai começar a política.

- Pois é. Acaba uma barulheira, começa outra.

- Mas o senhor gosta de campanha política, não gosta?

- Já gostei, não gosto mais não.

- De primeiro era diferente ?

- Ah, se era. A gente também entrava na campanha, pedia voto de casa em casa. Se a gente gostava do candidato, a gente fazia campanha pra ele. E fazia tudo de graça.

- Trabalhava só por amor à camisa ?

- Eu trabalhei com gosto para o Hélio Palermo. Ele foi professor meu no grupo escolar e foi ele que me levou pra Prefeitura. Quando ele largou a política, trabalhei para o menino Maurício.

- Ah, então o senhor foi cabo eleitoral do Maurício Sandoval Ribeiro?

- Pedi muito voto pra ele.

- Falam que o Maurício criou o Grupo Novo...

- O povo fala pelo nariz, não foi nada disso.

- Mas já cansei de escutar essa história.

- Escutou errado. Foi assim: quando a Faculdade Pestalozzi entrou em crise, os professores queriam fazer uma cooperativa, queriam tocar a escola, mas não conseguiram nada. Parece que foi porque eles não tinham força política. Então resolveram formar um novo grupo político na cidade.

- O Maurício era professor?

- Não, não era. Lembro que eram professores o Roberto Engler, o Paulo de Tarso, o Fernando Bueno, o Ari Balieiro... Lembro que eles juntaram mais um punhado de rapazes e fizeram filiação na Arena, que era o partido do Governo. Sei que levaram o Chiachiri e o Maurício também. O Maurício era bancário, e o Chiachiri trabalhava na Unesp. O que eu sei é que juntaram um monte de gente nova, por isso ficou conhecido com o nome de Grupo Novo.

- E por que escolheram o Maurício pra ser o candidato deles?

- Ah, isso eu não sei não. Sei que naquele tempo só existiam dois partidos. Um partido tinha nome de Arena, e era o partido do Governo. O outro partido era da oposição e era chamado de MDB.

- Então só tinha dois candidatos a prefeito?

- Não, não. A regra era diferente: cada partido podia ter até três candidatos. Naquele ano de 1976, a Arena concorreu com o Maurício, o doutor Lancha e o Severino Meirelles. Do outro lado, o MDB concorreu com o Onofre Trajano, o doutor Aníbal Vilela Moreira e o Edson Ferreira de Freitas. O menino Maurício ganhou de todo mundo. Quando faltava uma semana pra eleição, todo mundo jurava que o Doutor Aníbal já era o prefeito da cidade. O vice dele era o Doutor Antônio Carlos Ewbank.

- A campanha era muito diferente naquele tempo?

- Muito. Era muito diferente. Naquela época, o político ia na casa do eleitor, conversava com o povo. O Maurício foi lá na minha casa, e eu chamei todos os vizinhos lá da Rua Padre Conrado.
A sala ficou pequena, um montão de gente esprimida, ouvindo o rapazinho. Ele era muito educado, pegou na mão de um por um, até dos meninos. Lembro que ele assumiu a Prefeitura no dia 31 de janeiro de 1977. O vice dele foi o Chiachiri.

- Nossa, Sô Chico. O senhor lembra muita coisa. Fico até com inveja da sua memória.

- Ah, eu tenho cabeça de elefante, guardo tudo, não esqueço nadinha. Até me lembrei agora que eu preciso ir. Até qualquer hora, jovem.

- Vai com Deus, Sô Chico.

O velho se vai no seu passo vacilante, apoiando-se na bengala, enquanto, num momento de raro bom senso, o corretor se pergunta se a memória dos Chicos e dos Francos se perde nos esgotos do tempo ou se é conservada em algum cantinho da cidade cada vez maior e que se esparrama em direção às cidades vizinhas.


Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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