Celebremos!


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Então, transpus a porta, saí
mundo afora.
Fui acender o sol.

Luiz Cruz de Oliveira in Acendedor de sol

 

Hoje, 24 de julho, o Professor e Escritor Luiz Cruz de Oliveira transporá mais uma vez o portal do sonho e acenderá outro dos muitos sóis que há 40 anos vêm luzindo amanheceres na literatura francana. No curso Ave, Palavra!, entre companheiros de letras e irmãos de alma; entre aromas de café, sabores de prosa e cores de poesia, trará uma nova aurora ao mundo literário: abrirá ao leitor as páginas de Cantos e desencantos.

Sem versos nem estrofes, no que concerne ao aspecto formal, o novo livro exibe, no entanto, o olhar lírico do autor. Em linguagem poética, quase musical, fala de sua infância e maturidade; de seus caminhares, antes e depois de sair mundo afora acendendo sóis: “Durante uma vida, andei planícies, subi morros, desci vales. Estive por invernos na linha do horizonte azul”.

Desenha suas passadas no terreno do sonho e da vigília: “Sou sonhador. E viverei sempre dançando com frases, metáforas e palavras que colhi”. Revela seus amores: “O coração do cantor só pulsa, só canta quando alimentado por muitos, muitos amores”, e seus temores: “Tenho medo - o medo maior - de, um dia, sentir saudade da mulher amada”.

Canta cantos e tece azuis em noites de silêncio e breu: “Levantei-me e, ternamente, recolhi cada gota de riso que bailava no ar. Fixei, uma a uma, todas elas em pautas, depois espalhei-as em partitura”. Planta alvoradas em céus de crepúsculo e, “atravessando noites, colhe auroras”: “... saio junto com o sol [...] e canto meu canto de esperança para todos os homens”.

E entre cantos e desencantos, acorda sonhos em vida: “Aqui, passo a passo, venho compondo e cantando a minha estrada”.

Assim, páginas afora, segue provando o chão, o céu, o amaro, o amor; lavrando vogal, verbo, verso, vida; erguendo a voz além-divisas, além-mistérios - da procura do canteiro: “A caneta passeia na asa do vento, mergulha na água, deita-se na areia, sobe e desce montes”, ao momento do plantio e à beleza da resposta: “Quando a terra e o coração estavam prontos, mergulhei a semente, que explodiu vermelha, transpirando ânsias de céu.”

Ainda neste 24 de julho, Luiz Cruz brindará com os amigos ao primeiro sol que ateou, há quatro décadas, no Leste mineiro: Outra Janela em Graciliano, livro que exibe, do autor, o olhar penetrante e realista de quem conhece o terreno que palmilha e o horizonte que ilumina.

Em trabalho minucioso, faz a análise, a um tempo, lúcida e sensível, aguda e apaixonada - quase cúmplice - dos personagens de Vidas Secas. Aqui, o espírito do professor guia as mãos do escritor que, metódicas, penetram, palmo a palmo, a alma dos retirantes; vasculham nelas os labirintos e os descampados; os terrenos áridos e os pequenos oásis; e, didáticas, recolhem, ordenam e expõem, de cada um, os sentimentos que se escondem sob o peso plúmbeo de um só instinto: o da sobrevivência.

Baseando-se na forma como se relacionam entre si, e com o mundo áspero que os cerca, desvela os muitos sentires e os parcos sonhares que convivem na atormentada alma do “homem premido pelo abandono [e cercado pelas] grades da miséria, da incultura e da solidão.”

E se revela, o autor, na segunda edição, lançada em Franca, no ano de 2002, “preso a essa janela por laços afetivos”. Talvez porque “O corpo correu mundo [...] mas o espírito permaneceu encarcerado na água do Bicão e no altar da igreja matriz”. Talvez porque o homem e seu sonho, o homem e seus amores, o homem e seus temores descobriram o homem e seu canto, o homem e sua Palavra: “Um dia, [...] deixou que um aroma de pedra, de terra e de água e de ternura molhasse o seu coração. [...]. E ele começou a percorrer outro caminho pedregoso: o caminho da palavra.” Talvez porque, “como aos Severinos de João Cabral, [um dia] coube também aos pais do [Luiz] menino a sina ‘De abrandar estas pedras’.” Certamente porque, ele sabe, os caminhos abertos nas pedras, na terra e no sonho são o mesmo caminho de todos esses homens - fabianos, severinos e luizes.

Assim, vida afora, segue acendendo sóis nos céus mineiro e paulista; aclarando veredas; alando olhos, corações e almas; e se encantando com eles: “Lá e cá professorei. E me encanta e me basta o voo liberto de antigos tutelados, rasgando céus de lá, de cá e de todos os cantos.”

Assim, Luiz Cruz de Oliveira abre outra janela em si mesmo, por onde descortina mil alvoradas, e nos convida a celebrá-las com ele.


Serviço:
Titulo: Cantos e desencantos
Autor: Luiz Cruz de Oliveira
Editora: Ribeirão Gráfica
 
 
Eny Miranda
Médica, poeta e cronista

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