Mestre


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E como de costume, lá estava ela batendo à porta do vizinho:

 - Senhor José, a dona Celeste já leu o jornal?

 - Já, minha filha, pode levar...

 A menina atravessava a rua com o Comércio da Franca emprestado e, em casa, abria as páginas sobre a mesa separando o Caderno de Domingo para si.

 - Manhê! O jornal está aqui em cima!

 Curiosa para ver o texto da vez, parava no tapete e lia o que o professor Luiz Cruz trazia de novo naquela semana. Era tudo tão bonito! Ele fazia com que as palavras dançassem por cada linha, ao som do canto que, há tempos, embalava a alma humana de forma sutil.

 O sorriso da menina brilhava sob o encanto de tantas palavras doces. Algumas, um tanto amargas, a faziam ver que o mundo tinha muita coisa a ser mudada. Então, cada escrito se convertia num grito de motivação: “Mãos à obra, minha cara! Mãos à obra!”

 As letras do mestre transbordavam-lhe o espírito:

 - Mãe, pode escutar um texto que acabei de ler?

 - Pode, filha. Leia para mim,  dizia enquanto preparava a janta.

 E a prosa do sábio criava movimento nos ares, atravessando a alma da mãe e até do pai, que passava pela cozinha. Era sublime!

 Com os textos do mestre, a menina tornou-se amiga do dicionário. Luiz Cruz falava bonito, mas às vezes falava tão difícil, que levava a criança a consultar o significado de muitas palavras. Ela nunca se esqueceu do que é um retrospecto, embora até hoje não tenha entendido muito bem o que é um precatório.

 Não era toda semana que Luiz Cruz aparecia no jornal com seus textos. Em sua ausência, a menina recorria a outros colunistas, claro, mas por conta do vazio que sua falta deixava tentava compensar o espaço em branco com o resumo das novelas. Em vão. Embora gostasse de novelas mexicanas, não tinha graça não ler o Cruz. Não tinha graça...!

 Passaram-se alguns anos. A menina havia crescido. E um dia, em uma feira literária, na praça central da cidade, reconheceu de longe o sábio escritor:

 - É ele, mãe! É ele!

 - Vá conhecê-lo, filha! Vá!

 Mesmo tímida, não pensou duas vezes antes de se aproximar:

 - Professor Luiz Cruz?

 Ele sorriu. Foi um momento mágico! Ela conheceu o alegre Cruz e até tirou uma foto com ele.

 Ali concluiu que os grandes mestres não têm mesmo reservas. O humilde e grandioso encantador de palavras sabia também cativar o sorriso de meros aprendizes.
 

Lívia da Silva  Inácio
Coordenadora do “Projeto Jornal Escola” do Comércio

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