Até mesmo a gestante mais nervosa e cheia de dúvidas dificilmente não ficará mais tranquila ao entrar na sala do obstetra José Bernardes de Pádua. Ela vai encontrar do outro lado da mesa um senhor de cabelos brancos e com um sorriso que transmite confiança. Até mesmo a parede cor de rosa parece que foi pintada pensando nelas. Religioso, faz questão de mostrar as imagens de Nossa Senhora e de São José que ficam em cima da mesa. Em companhia a elas estão os inúmeros livros espalhados por todo o consultório a quem ele ainda recorre até hoje.
Mineiro de Pratópolis, Pádua mudou-se para São Paulo ainda adolescente para estudar, sonhando em um dia se tornar doutor. Filho de um comerciante e uma professora não teve nenhuma influência em sua escolha. Simplesmente acreditou no sonho e foi atrás. Formou-se em 1967 e começou a atuar em Ribeirão Preto, passou seis meses em Manaus e, por pressão da família, se mudou para Franca - de onde nunca mais saiu. Em Franca, ajudou a fundar o Hospital São Joaquim, um de seus orgulhos.
Com 69 anos de idade, sendo 40 deles dedicados à medicina, Dr. Pádua, como é conhecido, sorri ao dizer que trouxe ao mundo cerca de 11 mil crianças. Mesmo depois de tantos partos, garante que ainda sente a mesma emoção. Alguns casos foram difíceis, mas destes ele não gosta nem de lembrar. Prefere contar as histórias que tiveram um final feliz. Muitos destes momentos foram parar em fotografias que podem ser vistas em seu consultório com dedicatória e tudo.
Dr. Pádua também se orgulha em dizer que foi ele quem trouxe para Franca um aparelho chamado sonar, com o qual era possível ouvir o coração do bebê no útero da mãe. Foi uma revolução. Ele se recorda que foi com este aparelho que evitou que uma gestante fizesse a curetagem achando que o feto já estava morto. Nasceu uma menina. Anos depois, aquela criança recorreu ao mesmo médico na hora do parto.
Quando perguntado se considera-se um especialista em gravidez de risco, Pádua nega dizendo que, na verdade, é um médico de família. Feliz, diz apenas que hoje cuida de gestantes que ajudou a nascer. E assim foi formando sua clientela. Dos pacientes pede respeito. Se alguém faltar à consulta marcada sem ao menos dar uma satisfação, risca o nome de sua agenda. Ele também se cobra, em 40 anos de profissão só interrompeu três consultas em andamento. São situações que só acontecem em dois momentos: quando o Hospital São Joaquim chama ou alguém da família telefona em situação de urgência. Outra medida adotada pelo médico é tirar o computador do consultório. Para ele, a máquina cria uma barreira entre médico e paciente. Os danos são anotados em um fichário e depois transmitidos para o computador. Também não atende telefone durante a consulta.
As mulheres que fazem parte do fichário de Dr. Pádua podem ficar tranquilas, ele não pensa em se aposentar. “A medicina é boa por causa disso. A gente não larga da medicina, é ela que larga da gente”.
Comércio da Franca - Qual a diferença da medicina de quando o senhor começou a atuar para os dias de hoje?
José Bernardes de Pádua - A medicina de ontem era mais voltada para a humanização. O profissional antes de ser um especialista, ele era médico e, como tal, tinha uma visão global do paciente. Ele tinha de saber o histórico da pessoa porque os exames de laboratório eram limitados. Eu, por exemplo, usava um livro de 800 páginas como “exame de laboratório”. Não tínhamos nem 20% do que temos hoje à nossa disposição. Não tínhamos radiografia nem ultrassom. Eu trouxe para Franca o primeiro aparelho que era usado para ouvir o coração da criança a partir do terceiro mês de gestação. Outra revolução para a medicina foi a chegada do ultrassom, nos anos 80, que passou a dar uma tranquilidade maior para a paciente. Nos ajuda a dar uma boa notícia para a mãe sobre a saúde do bebê. Mas ele mostra também casos em que a criança tem alguma patologia. Há casos em que se pode fazer alguma interferência ainda no útero e salvar a criança. Evidentemente que temos situações em que não é possível fazer nada, só preparar a mãe. É o caso anencefalia. Temos certeza absoluta que o futuro do bebê não será longo. Por outro lado, podemos nos deparar com outra anomalia em que uma equipe fica preparada para agir assim que a criança nascer. Hoje em dia tudo está mais fácil. Até os partos são transmitidos pela internet para que a família possa acompanhar.
Pádua - Nenhum parto que fiz foi igual ao outro. Cada situação é diferente da outra. Mesmo depois de tantos anos ainda sinto a mesma emoção de quando comecei.
Pádua - Não forço parto normal nem o operatório. Procuro fazer o parto humanizado em que a mãe não sofre e a criança nasce em ótimas condições. É a própria natureza que vai indicar o parto. Evidentemente que a paciente tem o direito de escolher o parto que ela quer. Claro que a indicação na hora em que ela entrar em trabalho de parto é o médico que faz, mas a paciente tem esse direito de escolha.
Pádua - Desde o quarto ano de medicina em Ribeirão Preto, tenho mais ou menos 11 mil partos, sendo 9 mil só em Franca. Agora estou fazendo partos dos filhos deles. Como ainda dou aula para gestantes, encontro muitas meninas que nasceram comigo assistindo às minhas aulas. Mas estou reduzindo o número de partos que faço porque prende muito o médico. Antigamente eu fazia 80 partos por mês. Hoje devo fazer uns três ou quatro. Para mim, o médico não pode ser 50%. Ou ele está 100% envolvido para passar segurança para a paciente ou então é preferível que ele não assuma o compromisso. Eu procurei realizar todos os partos dos quais fiz o pré-natal. Não foi possível acompanhar todos por motivos de força maior. Atualmente atuo em casos especiais, como gravidez de risco, de pacientes que nasceram comigo e de famílias que têm uma confiança muito grande em mim e que não admitem a presença de outro médico que não seja eu.
Pádua - Ah! Sim. Infelizmente perdi. Em uma carreira de 40 anos é muito difícil não ter dessabores. Também perdi pacientes. O problema é que antigamente as gestantes não faziam pré-natal e só iam para o hospital na hora de ganhar. Muitas vezes o médico só conhecia a gestante na sala de parto. As chances de pegar casos complicados eram muito grandes e não tínhamos a tecnologia de hoje. Não sei quantos foram porque os casos bons eu lembro, já os ruins procuro esquecer. O médico é humano.
Pádua - Lembro de um caso de uma paciente que veio até meu consultório no terceiro mês de gestação com hemorragia genital e já com diagnóstico de abortamento incompleto para fazer uma curetagem. E que, eu com o meu aparelho, consegui ouvir o coração do bebê. Então fiz um pacto com esta paciente. Ela tinha que ficar de repouso em casa. Depois de 15 dias daria uma solução melhor. Eu não estava de acordo com a curetagem porque a criança estava viva. A gravidez evoluiu sem problemas, apesar da paciente ter perdido muito sangue durante toda a gestação. Ela teve que ser internada por duas vezes para fazer transfusão tamanha era a quantidade de sangue que ela perdeu. A criança, que era uma menina, nasceu em perfeitas condições. Ela inclusive mora na Inglaterra, onde engravidou. Lá eles têm uma forma de parto domiciliar. Quando entrou em trabalho de parto a mãe estava junto e me ligou. Por telefone eu orientei e ajudei no parto.
Pádua - Afeta muito. Porque uma criança que é rejeitada pela mãe ainda dentro do útero poderá ter problemas até na vida adulta. Às vezes ela não tinha nem cérebro ainda, mas se sentiu rejeitada pela mãe durante os nove meses de gestação, isso vai afetá-la. Evidentemente que o meio em que ela é criada também é muito importante. A criança tem uma identificação muito grande com a mãe dentro e fora do útero. No momento do nascimento ela chora, é recepcionada pelo pediatra e continua chorando. Quando volta para a mãe e recebe o calor materno, para de chorar imediatamente. Ela volta para aquilo de onde ela veio, o que ela conhece. Por isso, costumo orientar as mães que não mudem nem o perfume, nem o desodorante porque o filho reconhece a mãe pelo olfato. Durante a gestação, os pais devem conversar com a criança até quando estão passeando. Quando ela tem um irmão, então é preciso fazer o mesmo, principalmente para evitar que tenha uma rejeição.
Pádua - É um processo fisiológico. A depressão pode tanto acontecer durante a gravidez como após o parto e em graus diferentes. Hoje cientificamente a gente sabe que isso acontece principalmente pela queda hormonal brusca. Existe uma queda muito grande da progesterona e então faz com que desenvolva a diminuição de um outro hormônio cerebral que chama endorfina e ela diminuindo, faz com a pessoa desenvolva uma depressão pós-parto. Mas a depressão existe em diferentes graus. A mãe pode ficar triste ao achar que não vai conseguir cuidar do filho ou sofrer com o choro da criança indo até a falta da imagem paterna. Tem ainda a depressão psicótica em que a mãe pode até matar o bebê. A depressão deve ser tratada com medicamento devendo ser acompanhada pelo obstetra e, dependendo do caso, até mesmo por um psiquiatra.
Pádua - Sou muito otimista profissionalmente. Às vezes pode ser que intimamente eu esteja sofrendo horrores por determinado caso, mas procuro passar para a paciente um otimismo contagiante. Se alguém deve sofrer, que seja eu. Não a paciente nem os familiares. Prefiro sofrer só a passar isso para a paciente.
Pádua - Acho que a fé, tanto da mãe como do médico, é um fator primordial. Os dois têm que ter fé. Porque se o médico se julgar um deus, ele já demonstra que não tem fé. Ele tem que colocar Deus ali no ato que se propôs a fazer. Ele tem que colocar Deus em primeiro lugar. Acredito em um poder sobrenatural. Me sinto muito bem protegido por ele. A primeira coisa que faço quando chego no consultório é pedir a proteção de Deus. Peço que, pelo menos, ele não me deixe fazer besteira.
Pádua - A primeira coisa que a gente tem que se perguntar é o seguinte: quando começa a vida? A vida começa na hora da fecundação. Eu acredito nisso. Evidentemente que existem opiniões variadas. Então, na minha opinião, tudo o que se fizer desde a hora da fecundação, após o nascimento e durante toda a vida daquela pessoa, o crime é igual. Fazer um aborto aos três meses de gestação, matar uma criança de três anos ou uma pessoa de 80 anos é a mesma coisa. Para mim, é vida do mesmo jeito.
Pádua - Tive uma paciente de 16 anos que tinha síndrome de Down. Essa adolescente tinha autorização judicial para interromper essa gravidez porque o pai da criança era o próprio tio, que também tinha down. Ela veio ao meu consultório com o pai dela para que fosse feito o aborto. Ela mesmo não tinha noção do que era a gravidez. Eu, por questão de consciência, disse que não poderia realizar mesmo sendo um caso de incesto. Eles foram em outros três médicos que foram indicados e todos se negaram. Aos sete meses de gravidez, esse pai voltou ao meu consultório e me fez a seguinte pergunta: “Doutor, qual o maior risco que minha filha corre? Fazer o aborto agora ou o parto?”. Respondi que era o aborto. Então ele me disse que não tinha condições de me pagar e perguntou se eu podia acompanhar a filha dele Eu fiz o pré-natal e o parto. O menino nasceu sem nenhum problema. A criança foi criada pelos avôs e ela se desenvolveu muito bem. Quando já era rapaz, ele veio ao meu consultório trazer uma foto que tirou ao entrar para o Tiro de Guerra. Foi emocionante. Me senti muito bem por não ter concordado em interromper aquela gravidez. Tenho a impressão de que este menino passou a ser o alicerce da família.
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