Você já ouviu falar de Helinho do Megafone, que dedica sua vida a – literalmente – gritar as tristezas do trânsito francano? Há anos, apenado pela vida com a perda de uma filha em um acidente, nunca mais foi o mesmo mas não se entregou. Incomoda. Querem-no longe, mas ele não desiste.
Muitos o consideram desprovido de razão. Respeito-o. Coração ferido e memória triste que jamais vai se desvanecer, dedica-se, com seu megafone a tentar impedir que as estatísticas do trânsito parem de crescer. Chora e chorará a morte da filha para sempre mas não quer fazê-lo apenas para seus botões. Amplia sua comunicação como pode. Como disse, respeito-o e espelho em sua batalha o tema deste texto. Em minha concepção, falta de atenção, desrespeito à própria vida e educação que quase todo mundo acha que não serve para nada são as principais causas dos acidentes e das mortes no trânsito, guerra civil com mortos e feridos em profusão que esta cidade e este País travam todos os dias.
Pare em uma grande avenida, proteja-se e observe. Lá vem uma moto conduzida a 80 – ou mais – quilômetros por hora em via onde a velocidade máxima é 40, 60. Escapamento aberto o veículo passa urrando, testa do condutor servindo de pára-choque, perna exposta fazendo as vezes de “mata-cachorro”. Mete-se o desbravador a manobras de ultrapassagens em alta velocidade capazes de disparar o coração de seus pais, soubessem que o filho “corre” desajuizadamente por ai. Se você tiver paciência – e não precisa muita com indicam as estatísticas – pode testemunhar uma derrapagem, uma queda, quem sabe até um acidente grave. Ao próximo bólido, repare no capacete não preso ao queixo, na viseira levantada do condutor.
Salvo – por ora – o piloto de velocidade que acaba de passar, observe agora a mãe conduzindo a filha pequena em garupeira, ambas de capacete... sem presilha e também, ambas, de viseiras levantadas. Perguntei a uma motoqueira, dia destes, sobre: “Ah! Faz muito calor e de mais a mais, todo mundo usa assim”.
Usa mesmo. Até policiais militares e guardas municipais andam por ai com viseiras levantadas. Os mesmos agentes de segurança que multam por “viseira levantada” emburrecidos condutores, safam-se de brigar para provar que não estavam e para defender CNH’s fortemente pontuadas por essa infração gravíssima. Perguntam-me sistematicamente: “policial pode?”. Respondo que “não pode! É proibido”. Sinto-me um imbecil. Não pode mas pode, sabe como é?
Vamos agora a automóveis a seus motoristas maravilhosos. Você já percebeu que a maioria dos motoristas não usa o espelho retrovisor para nada? Diz um amigo que “usam sim, mas só para pentear o cabelo”. E o que dizer daquele que sai de uma rua secundária e, dono do mundo, entra na via principal sem medo e nem documento? Se você estrila corre o risco de ser agraciado com meia dúzia de palavrinhas desacertadas, retrato da titica de galinha que têm no lugar do cérebro...
De seu ponto de observação na avenida de pista dupla você testemunha mais um engarrafamento. Estica o olhar e percebe, lá na frente, um espaçoso cidadão parado ao centro das duas pistas, falando ao telefone, alheio a tudo, a todos, ao mundo inteiro. Arranca e, 10 quilômetros por hora e ainda ao telefone, toma a pista da esquerda – será canhoto? –, obrigando o restante do mundo a confirmar-lhe que o universo gira mesmo em torno dele. Se parar em algum semáforo, será no verde e por sobre a faixa de pedestres. Dúvida? Observe. Você vai se surpreender.
Por último, recordo sobre o local preferido pela maioria dos motoristas para sofrer ou dar causa a acidentes: perto da própria casa; do local de trabalho. Pesquisas provam e comprovam mas a maioria continua fazendo questão de ignorar. É nos lugares que julgamos mais conhecidos que reduzimos nossa atenção. Perto de nosso “quadrado” julgamo-nos super-homens, imbatíveis. Quem, dentre os que me leem se lembram de olhar pelo retrovisor antes de fazer a curva na rua para adentrar a garagem de casa?
Não quero contribuir para o aumento de certas estatísticas. Educação é tudo. Atenção é tudo. Respeito à vida, nossa e de terceiros, é tudo. Quem gosta de mim e dos meus, sou eu. Fim aos chapéus atolados e aos que se julgam donos do mundo, se é que ainda dá tempo...
RESPEITO?
À porta de casa simples no Jardim Aeroporto o jovem destrói lâmpadas fluorescentes em uma vasilha onde antes colocou cola. Dentro da pequena garagem, um homem observa e faz que não vê. Não me contento e pergunto: o menino é seu? E ele: “é meu neto”. O senhor já percebeu que ele está fazendo cerol? E o homem: “Já. Faz sempre. Falo sempre. Não adianta”.
DESATENÇÃO
Você costuma olhar em volta de sua casa à noite, quando volta para casa? Acha que não há problemas? Acha que jamais será surpreendido desprevenido por alguém que se esconda sob a árvorezinha que você mesmo plantou na calçada? Cuidado. Conforme afirmei, a gente desliga a atenção quando está em nosso “quadrado”. Nestes tempos de violência, manter o botão ligado até “mais tarde” pode ser a diferença entre viver e morrer.
EDUCAÇÃO
Sabe você o que acontece de mais importante em Franca? No Brasil? No mundo? Não? Gente de bem, que forma opinião, sabe e tem que saber; mas bandidos também sabem e adoram gente que nada sabe, que não está nem ai, que só pensa em olhar figuras, ouvir música, que não tem tempo para informar-se. Bandidos se informam para terem sucesso quando decidem passar a perna em você. Recuso-me a acreditar que o País melhor que podemos ser não possa acontecer a partir de seus cidadãos sérios, gente que se educa, que sabe de seus direitos e de seus deveres. Comigo, sem chances para o azar...
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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