‘Apocalipse: Clamores da Revelação’


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“O ser humano está
condenado a interpretar.
Isso quer dizer que ele
está condenado a ser livre”
 
Jean-Yves Leloup


Estamos mais ou menos por volta dos anos 70 da era cristã. Jerusalém foi destruída mais uma vez, agora pelos exércitos do imperador romano Titus Flavius Vespasianus, e os cristãos foram exilados. João, o apóstolo evangelista, e Maria, mãe de Jesus, encontram-se em Éfeso, na Turquia. Alguns anos depois, nova perseguição acontece então pelas mãos do Imperador Diocleciano. João agora é exilado na Ilha de Patmos, na Grécia. O momento é de muita dor: tudo parece ter fracassado. Ele vive um profundo conflito interno e questiona o porquê daquele cenário. Teria Cristo morrido em vão? Seria esse o fracasso do Amor? Por que o mal sempre prevalece sobre o bem? João vive o desmoronamento daquilo que ele sempre creu e o despedaçamento do ideal no qual sempre investiu. É dentro dessa estreita e dolorosa estrada que ele escreve o Livro do Apocalypsis. A palavra é grega e seu significado, ao contrário do que muitos pensam, é revelação, desvelamento e não tragédias sintonizadas com o “fim do mundo”. João recebe visões e escreve sobre elas. Até hoje esse livro é lido e interpretado de diferentes maneiras, mas o importante é que João sobreviveu através dele e nos mostrou que conseguiu atravessar o seu apocalipse. O que esse episódio nos mostra é que os momentos de dor nos revelam profundas descobertas. Muitas vezes só face ao absurdo é que conseguimos encontrar o sujeito que somos, o “Eu Sou” que nos habita mesmo dentro de grandes adversidades. As respostas para as questões de João não são racionais. Elas chegam a ele através do seu inconsciente, da linguagem dos símbolos, das imagens arquetípicas. E aí se faz a revelação. O encontro de João com a sua verdade. A verdade que ele crê e apregoa a todos a sua volta. O círculo se fecha, o abismo se reveste de significado e a dor encontra seu sentido. Alguns estudiosos do Apocalipse consideram que João teve um surto psicótico alimentado pelo desespero e pela solidão. Mas o significado mais profundo não teria permanência se fosse apenas o relato de um delírio. João faz um mergulho no seu inconsciente pessoal e no inconsciente coletivo que sua comunidade está vivendo e encontra a presença daquele que É. Então nos traz respostas reveladoras, desvelando mistérios. Esse livro pode parecer estranho e impenetrável, mas não deixa de ser um gênero literário encontrado em todos os escritos proféticos. Essa interpretação, sustentada por uma visão aberta e inclusiva, nos acalenta com a presença da beleza e da salvação, mas também nos levará a tomar consciência de todos os monstros que nos habitam. O Apocalipse descreve ações que são resultados de nossos hábitos. Não existe efeito sem causa. Há uma revelação do diabólico e do simbólico. Diabolus (palavra de onde se origina a palavra diabo) é aquilo que nos divide, nos separa uns dos outros, nos separa da Terra, da sabedoria do Cosmos. Junto a essa revelação do diabólico existe a revelação do simbólico: é a realidade que nos liga. O olhar de João, em Patmos, vê os eventos que despedaçam, mas vê também a luz que está por vir. O Apocalipse nos pede que sejamos sujeitos da nossa história. É um caminho de transformação. No lugar mais profundo da dor, encontrar o simbólico que nos fará retornar ao Essencial.

O caminho da interpretação nos leva aos diferentes personagens que nos aparecem como partes de um sonho revelador. Descobriremos o Alguém, o Cordeiro, a Mulher, a Criança e a Jerusalém Celeste que nos habita. Mas também enfrentaremos outras manifestações que irão provocar o encontro com nossas sombras: o Dragão, a Prostituta, o Shatan, os Cavaleiros e a Besta, realidades estas que estão todas no nosso interior. A primeira revelação que se desvela a João no Apocalipse não é a de uma catástrofe, mesmo porque isso ele já estava vivendo. O que se faz presente, no meio de tudo isso, é a força do Eu Sou. O que João escuta em primeiro lugar é: Não tenha medo. Tudo desmorona à sua volta, tudo vai desaparecer, mas Eu Sou. Esse é um convite para que voltemos ao nosso centro sempre que estivermos transtornados pelos acontecimentos, pelas emoções. Retornar ao centro, ao lugar onde dentro de nós está em paz. Voltar ao nosso eixo, ao Agora da realidade presente. É ali que habita o coração, que habita o Eu Sou. E foi a partir desse lugar que João pôde ouvir e compreender todas as revelações.
 
 
 
Jane Mahalem do Amaral
da Academia Francana de Letras

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