Ar adocicado


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Passa pouco das nove horas. Pessoas se amontoam em ambas as laterais da Praça Sabino Loureiro, onde os ônibus engolem e despejam homens, mulheres e crianças. Um velho de chapéu, de terno branco e gravata, destoa da multidão movediça. Está sentado num banco de cimento, perto do coreto, olhando para os prédios do primeiro quarteirão da Rua General Carneiro.
Os olhos estão bem abertos, mas ele não vê a loja da esquina que oferece o arco-íris para a clientela. Não vê o estabelecimento que acena a cura para todos os incômodos. Não vê a casa onde o governo promete ternos e quadras e milhares e milhões. Não vê a empresa que esparrama bilhetes - tapetes mágicos que possibilitam o transporte humano para todos os guetos e becos da cidade.


Os olhos estão bem abertos e ele vê muito nitidamente o Bar São João, do Tardivo-imóvel com enormes portas de madeira, alugado do Cavalheiro Petráglia. Vê a enorme marcenaria do Avellino Marangoni e a Pensão São Sebastião, do Anísio. Vê, lá na esquina da Rua Diogo Feijó, de um lado, a cafeeira Netto Irmãos, dos Rodrigues Alves e, defronte, a loja de auto-peças Primo Comparini. Vê, lá na esquina da Rua da Estação, a loja de brinquedos, do Alfredo Helu, e o Armazém Três Irmãos, dos Bittar.


Os olhos do velho estão abertos e ele vê uma carroça velha subindo a rua, puxada por um burro preto. O carroceiro se protege sob um grande chapéu de palha. Atrás da carroça, em passo lento como o da alimária, vem um cachorro muito magro.


Cachorro, carroça e carroceiro, burro e arreata velha, tudo se esfumaça ao sopro de uma voz.


- Bom-dia, Sô Chico.


- Hein? O quê?


- Oh, me desculpe, Sô Chico.


- Hein?... O que que aconteceu?


- Nada, nada. Me desculpe... Não queria...


A voz feminina é toda doçura, soa como acalanto que adormece o sobressalto do homem.
- Eu é que tenho que pedir desculpas... estava distraído... não vi a jovenzinha se aproximando...
- Eu só queria cumprimentar o senhor, Sô Chico. Acho que a gente nunca mais se viu depois da sua aposentadoria. Como o senhor vai indo?


- Bem... eu vou indo bem... Mas, se mal lhe pergunto, qual é a graça da mocinha?


Sou a Regina, lá do 2º. Cartório de Notas. A gente se falava muito quando o senhor trabalhava lá no Cadastro da Prefeitura.


- Regina... Regina de quê?


- Regina Célia Freitas de Oliveira.


- Ah, menina, você me desculpe... Ando esquecendo as pessoas... acho que é a idade.


- Não tem importância... afinal faz muito tempo... Mas de saúde o senhor parece bem.


- Vou bem, muito bem. Eu tenho saúde de ferro. Quem fala isso é o doutor Robertinho Rached.

Fala que meu coração é de bronze.


- Então, eu já vou indo, Sô Chico. Fique com Deus.


- Foi um prazer conhecer a jovenzinha.


O velho senta-se novamente, apóia-se na bengala com ambas as mãos, descansa o queixo sobre elas, fecha os olhos.


Olhos cerrados, o velho enxerga com nitidez a loja de roupas feitas, do senhor Osmar Correa Neves; a pequena livraria da dona Lola; o Bar 46, do Emílio Guedini, a casa enorme do Abrão Jorge, sob a qual ficavam o salão do Arlindo Barbeiro, a relojoaria do Antônio Caprioli... Enxerga com saudosa nitidez a banca do jogo de bicho e, na esquina, a Casa Comercial Abrão Jorge.


Os olhos fechados do velho ouvem as músicas que voam dos alto-falantes fixados no coreto.


Os olhos fechados do velho embalam a voz do Olivar Tasso e as músicas que voam, em zigue-zague, dos alto-falantes do coreto. O ritmo é acompanhado pelos passos dos jovens que sonham amores em torno dos canteiros.


Os olhos fechados do velho aspiram o cheiro adocicado que vem lá da fábrica do Nego Pé-de-moleque, e guardam o silêncio sonolento dos choferes nos carros de praça.

 

Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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