Fios da vida


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De Martinho da Vila: ‘Já tive mulheres de todas as cores, de várias idades, de muitos amores... Do tipo atrevida, do tipo acanhada, do tipo vivida, casada, carente, solteira feliz, donzela e até meretriz... Mulheres cabeça e desequilibradas, mulheres confusas, de guerra e de paz...’

Enquanto o poeta cantor desfia os tipos de amores de sua vida, vou desvendando a identidade de cada uma delas e concluo: todas, sem exceção, são minhas amigas. Foram amores dele, que amor acaba. São minhas amigas, que amizade é perene. O sentimento definido como ‘de afeição, simpatia, estima ou ternura entre pessoas sem elo de consangüinidade, laços de família ou atração sexual’, é peculiar por nascer espontaneamente e independer de proximidade física para se alimentar e se manter vivo. Pode permanecer em estado de latência, também. Por décadas. Num repente volta com ímpeto, força, renovado, revitalizado, fresco como se tivesse começado inda agorinha... Seu alimento principal são as lembranças. É capaz do perdão sincero, não permite a instalação do rancor e, se foi verdadeira, quando acaba, deixa na alma uma sensação gostosa, embora dolorida.


Minhas amigas... Tenho-as de todas as cores, de várias idades e muitos amores. Tenho-as loiras, morenas, negras, ruivas - idiossincrasias físicas, apenas. Tenho-as atrevidas - fico tímida perto delas; acanhadas - transformo-me numa leoa para defendê-las; vividas - sou garotinha inexperiente em contato com elas. No que diz respeito a estado civil, há casadas, descasadas, viúvas e solteiras. (Cada uma é prova decisiva de que a sensação de felicidade oscila constantemente entre dois pontos: extrema carência e absoluta satisfação.)


Tenho amigas donzelas - algumas por opção, outras por incompetência mesmo, e até meretrizes - de índole melhor que a minha. Tenho amigas herdadas de minha mãe - guardo como tesouros as que vieram acompanhando a família, ao longo dos anos. Tenho amigas que são avós como eu: trocamos informações valiosas sobre netos e meios de conserva-los. Tenho amigas intelectuais: volta e meia permutamos livros, filmes, confidências filosóficas, receitas novas do velho doce de abóbora e técnicas de como fritar um ovo, deixá-lo mole, sem arrebentar a gema, e informações sobre o último CD de Joshua Bell. Tenho amiga desbocada, tenho amiga insolente, malcriada, rezadeira, pintora, encrenqueira, infiel no casamento e tenho amigas lésbicas. Tenho amigas pegajosas, lacrimejantes, que vivem para fazer queixas. Tenho amigas de pouca idade, filhas de amigas antigas. Tenho amiga que entope minha caixa postal de recadinho inútil, mas de quem sinto falta quando não escreve. Tenho amiga charmosa que revirava os olhos para qualquer pretendente meu e que ainda hoje repete o gesto para com meu marido.


Tenho as que permaneceram nos meus momentos de dor e as que se mandaram na mesma ocasião. Tenho as que quebraram o voto de discrição quanto aos meus pecados e as que irão morrer comigo na fogueira do silêncio. Tem as que nunca ‘vingaram’ porque eu as rejeitei, mas que me devotam carinho dócil e esperança de eu me tornar menos intolerante. Tem as que me paparicam e as que me fazem de capacho. Tem a que me escreve - quando gosta do que escrevo mas tem a que fala mal de mim porque não gosta e fica falando nas minhas costas esperando que alguém me conte. Tem a que reza por mim -’pode ficar sossegada!’ - convencida de que existe uma caderneta que contabiliza oração.


Tenho amiga muçulmana; católica; agnóstica; evangélica; petista; petista arrependida; muda (nada a declarar!); saliente; discreta; rica; pobre; faladeira; nova; idosa; atéia; ligada ao mundo da justiça; dentro do mundo das drogas; bem casada (mas não me surpreenderei se vier a se separar do marido); mal casada (aposto que morrerá ao lado do desgraçado); que me deve dinheiro; que já invejei; de quem já roubei um livro. Mas a melhor amiga? Difícil: cada um delas o é, num determinado, apropriado e mágico momento. E nenhuma é só isso ou aquilo: todas elas, caleidoscópios repletos de boas e más características, se transformam constantemente, feito bicho da seda que produzem fios que tecem minha vida.

 

FILIA
No grego antigo a palavra philia (filia) tinha dois significados. Era usada ao mesmo tempo para designar a relação existente entre homem e mulher e o sentimento que ligava dois amigos - a amizade. Perdeu o primeiro sentido e conservou o de inclinação, pendor, estima e disposição por ou para alguma coisa. Aparece frequentemente. Exemplos: autofilia, anglofilia, biofilia, galofilia, heliofilia, dendrofilia, claustrofilia, anemofilia e entomofilia, velhas conhecidas dos fazedores de palavras cruzadas, facilmente dedutíveis: é só lembrar o significado de auto, bio, galo, helio... e juntar as duas coisas.


AMIZADE
Para os gregos a amizade era uma divindade alegórica representada como uma jovem coroada de flores ou de guirlandas de murta, que segurava nas mãos um maço de espigas. A jovem coroada é metáfora para festa, alegria. As flores e guirlandas são simbologia para algo superior, merecedor de louvor e glorificação. Tanto as flores - quanto a murta - são plantas ainda hoje oferecidas a campeões e vencedores. As espigas carregam o grão, a semente, capazes de germinar e de produzir.


LIVRO
Sobre amizade, a paixão amorosa e a honra: As Brasas, da Companhia das Letras, de Sándor Márai. Dois homens já velhos - e o fantasma de uma mulher - se encontram depois de anos de separação. Amigos inseparáveis num passado distante, não se vêem há décadas. Algo trágico os separou. Agora, frente a frente, enfrentam-se - para esclarecer o enigma - com a única arma de que dispõem: a palavra. Com elas ‘abrirão feridas tão dolorosas como as brasas que parecem extintas na lareira.’

 

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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