Trabalhar por prazer


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O mercado de trabalho anda bem modificado na cidade. Antes, as pessoas mais jovens iniciavam a vida profissional tradicionalmente na área de calçados. Agora o campo para atuação trabalhista passa por profundas alterações. Alguns setores de produção conquistaram até uma faixa etária mais nova, até então era direcionada para a manufatura coureira.


O motivo principal dessa debandada de foco profissional talvez esteja no fato de a indústria calçadista ter passado por momentos difíceis em passado recente. Com isso, além de salários baixos, a empregabilidade ficou instável na área. No momento, devido às boas vendas, a mão-de-obra especializada anda das mais escassas.


O pessoal mais novo buscou outros rumos profissionais. Uma rápida olhada nos trabalhadores do setor de construção ou de reforma de imóveis possibilita a constatação do fenômeno. A maioria dos serventes ou pedreiros é hoje composta por jovens. O serviço pode até ser mais pesado, mas tem o atrativo da autonomia. Quase sempre se trabalha por empreitada, com a possibilidade de ter remuneração maior, em função do próprio desempenho.


Pouca gente consegue trabalhar por prazer. Ainda mais se o regime de remuneração for diário, semanal, quinzenal ou mesmo mensal.


O cantor e compositor Gonzaguinha usou ironia para escrever Comportamento Geral. Dois versos da canção dão bem a dimensão do dilema do trabalhador sem serviço: ‘Você deve rezar pelo bem do patrão/ E esquecer que está desempregado’.


Sim, mesmo que a pessoa não tenha trabalho no momento, deve orar para que o patrão tenha sucesso! Só assim (quem sabe?), o desempregado pode ter um pouco de alento para conseguir a almejada vaga no futuro. E, dependendo da boa vontade do industrial ou empresário, receber até treinamento na época das vacas gordas, como a de agora.


Face a falta de mão-de-obra apropriada ao setor calçadista, aventa-se da possibilidade de se incrementar o treinamento. Novos cursos dedicados ao desenvolvimento de técnicas destinadas à fabricação de calçados estão em estudo. No entanto, enquanto o mercado estava em baixa não se cogitou da implementação para formação de novos profissionais.


Outras áreas de atividades também necessitam de cursos técnicos. Num passado não tão distante, a Escola Industrial mantinha o mercado trabalhista aquecido com excelentes profissionais. Hoje, de onde saem marceneiros ou profissionais em fundição? Os poucos especialistas em madeiras ou metais são aperfeiçoados nas próprias empresas.


Somente promessas de cursos profissionalizantes não resolvem. Torna-se necessário uma maior participação política, para que o poder público crie condições favoráveis à implantação de novos cursos ao lado dos já existentes nas instituições de ensino técnico. E que o treinamento seja dedicado aos mais carentes. Claro, sem cobrança de mensalidades!

 

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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