Aproveitando a Francal, evento ocorrido na semana que passou, começamos a rememorar alguns acontecimentos dos quais tivemos o prazer e a honra de presenciar e participar.
Nessa jornada construída por idealistas das indústrias de calçados de nossa cidade, fui funcionário, despachante aduaneiro, agente de exportação e proprietário de fábrica de calçados. Hoje, muitos que trabalham e vivem em razão da indústria de calçados não imaginam quantas foram as desilusões, as dificuldades, as barreiras enfrentadas para que o parque calçadista francano pudesse se destacar, ser respeitado e alcançar o estágio em que hoje se encontra. Muito nos orgulha ver a admiração dos visitantes e autoridades que a cada ano participam da feira e, se mostram surpreendidos em razão do nível de qualidade, sofisticação e desenvolvimento tecnológico alcançado pelos produtores de calçados de nossa região, que em nada deixam a desejar em relação ao mercado mundial.
No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, tivemos o primeiro contato com a indústria de calçados, onde iniciamos aprendizado na área de preparação de corte do Calçados Squalo, que se localizava na Rua Ouvidor Freire, em frente a antiga sede do jornal Comércio da Franca, espaço hoje ocupado por uma empresa de solados de borracha. Naquela época alguns dos precursores da exportação em Franca se atiravam de corpo e alma, na busca de soluções frente às várias barreiras que surgiam no caminho entre a produção e o mercado internacional (consumidor). Neste meu primeiro contato com a fabricação de calçados, tive a oportunidade de crescer e passar pelas diversas etapas da cadeia produtiva, sendo um verdadeiro aprendizado de base.
Posteriormente me ausentamos de Franca, por alguns anos, época em que ingressamos na Academia da Força Aérea. Retornando à Franca, novamente retomamos contato com a indústria de calçados, através do trabalho em escritório de exportação e sócio de um grupo americano em uma fábrica de calçados, aqui em Franca e Campo Bom/RS.
Época que muito aprendemos, pois fazíamos de tudo para conseguir atrair os compradores, principalmente os do mercado americano. Passávamos noites em claro nos aeroportos esperando pela chegada dos mesmos, lutávamos arduamente para conseguir transformar as idéias dos estilistas americanos, colocadas em desenhos, em realidade, mesmo sem possuir matéria prima e maquinários adequados. Isto sem contar com o curto espaço de tempo para o envio das amostras para as feiras. Posteriormente tínhamos que fazer peripécias nos balcões de embarque para embarcar um enorme volume de amostras como sendo bagagem de passageiro. Após isso, ainda tinha que verificar no pátio dos aeroportos a “paletização” dos volumes embarcados, para certificar que os mesmos não seriam extraviados, fato comum naquela época. A propósito certa vez um grupo de empresários francanos desembarcaram em New York, sem nenhum pé de sapato para apresentar a seus clientes, pois os mesmos foram despachados em Guarulhos, porém foram retirados no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, para que se embarcassem produtos perecíveis. Foi um desespero geral, para que conseguíssemos colocar novamente os sapatos no vôo da noite seguinte e, assim não perder totalmente aquela feira.
Finalmente quando conseguíamos os pedidos, por vezes em razão da nossa política econômica, nossos preços estavam defasados, tínhamos também que lutar para conseguir mudar a visão e o modo de produzir o sapato, quebrando sistemas utilizados à décadas, o que não era fácil. Também, cabe destacar, as dificuldades que havia para selecionar clientes, pois por Franca passaram vários “aventureiros” que trouxeram prejuízos e dissabores a tantos fabricantes tradicionais que “fecharam as suas portas” em razão de alguns inconseqüentes “trambiqueiros”.
Caro leitor efetuamos este breve relato, no sentido de ilustrar fatos que ocorrem no dia a dia de um parque industrial para se manter num mercado mundial altamente competitivo. Fatos que por vezes são desconhecidos da maioria daqueles que vivem da indústria de calçados, pois esta luta é contínua e diária, em razão de que a indústria calçadista passa por transformações significativas no seu padrão de concorrência.
Franca se destaca na fabricação de calçados por apresentar e possuir desde o seu início as principais características de um “cluster” que são concentrações geográficas de companhias e instituições inter-relacionadas num setor específico, facilitando assim a produtividade na busca de insumos, tais como: qualidade da mão de obra especializada, fornecedores de matéria prima, máquinas e componentes. Além de facilitar o aceso à informação tecnológica também cooperam em aspectos mútuos em participação em feiras, consórcios de exportação, compartilhamento de frete para comercialização, desenvolvimento de produtos e matérias primas, etc. Isto independentemente de competirem no mesmo mercado.
Em síntese nós que hoje, estamos afastados do dinâmico setor calçadista, e que vemos alguns jovens darem seqüência ao trabalho de suas famílias, gostaríamos que estes não se esquecessem de que o nome que o sapato de Franca possui é fruto de várias gerações de idealistas e abnegados que não mediram esforços para superar dificuldades, trabalho este que deve ser dado seqüência com humildade e persistência.
COMO VOCÊ VÊ A VIDA?
“Era uma vez uma indústria de calçados aqui no Brasil que desenvolveu um projeto de exportação de sapato para um mercado específico. Em seguida, mandou dois de seus consultores a pontos diferentes do País para fazer as primeiras observações do potencial daquele futuro mercado.Após alguns dias de pesquisas, um dos consultores enviou o seguinte fax para a direção da indústria: ‘Senhores, cancelem o projeto de exportação de sapatos. Aqui ninguém usa sapatos’. Sem saber desse fax, alguns dias depois o segundo consultor mandou o seu: ‘Senhores, tripliquem o projeto da exportação de sapatos. Aqui ninguém usa sapatos AINDA’.”
Autor Desconhecido
Toninho Menezes
Advogado, administrador de empresas, professor universitário -
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