Ainda existe uma geração que se lembra – com saudades – do velho IETC, aquela escola com corpo docente notável, responsável pela formação de milhares de jovens. Muitos professores a serem louvados, especialmente hoje aquela professora que nos fazia cantar – com ou sem voz adequada canções nacionalistas, melancólicas, folclóricas – e aprender a solfejar na marra... Dia 9 de Julho, é dia de homenagear Lúcia Gissi Ceraso. Já digo o motivo.
Fui uma das suas prediletas, não tenho dúvida. Embora nada ortodoxa no que diz respeito a disciplina e aplicação, eu a adorava, compartilhávamos gosto pela música, pelas letras e melodias rebuscadas, pelas canções italianas tanto do seu agrado. Fui retribuída na mesma intensidade e por muito tempo. Com ela de atriz principal, tenho um monte de lembranças – a maioria engraçada, outras tristes, algumas patéticas e até constrangedoras. Por exemplo, lá pelos anos 90 não era mais sua aluna, quando fui fazer-lhe convite especial para uma apresentação no Teatro Municipal, no qual eu cantaria uma música que ela me ensinara no passado. Aceitou. Na hora do espetáculo chegou de vestido de brocado, estola de peles, bolsa com penduricalhos brilhantes e aquele anel de formatura, com uma lira cheia de pedras preciosas. Entrou triunfante. Do palco eu a vi em pé, me aclamando no meu dia de Kiri Te Kanawa. Na manhã seguinte, acordo com um apelo: “Lúcia Helena, tenho um problema: meu anel de formatura desapareceu! Ontem eu a aplaudi tanto que ele deve ter voado do meu dedo!”. Fui procurar o objeto. Vasculhei do teatro, chão e vãos, em vão... Fui dar-lhe a triste notícia e a encontro excitada e feliz: não, não o perdera; estava no lavabo.
Mas, dizia, se me lembro dela em outros dias, no 9 de Julho tenho vontade de lhe rezar missa. Já digo o motivo. Antes, sugiro uma pesquisa: pergunte às pessoas qual a comemoração realizada na data. Um doce para quem souber! Naquele tempo, mesmo sem ser feriado – só em 1997 viria a ser – aluno dela sabia. Nas aulas de orfeão, cantávamos entre outros hinos, um especial cuja execução era feita por duas turmas: uma repetia “plan, plan, plan rataplan” e a outra mandava ver na letra: “Nove de Julho é a luz da Pátria/ Data imortal deste berço augusto/ Dos bandeirantes denodados/ Deste São Paulo vanguardeiro e justo” (...). Antes, ela daria sentido à execução da música marcial, falando sobre os soldados Constitucionalistas, a importância do estado de São Paulo no movimento da Revolução de 32, que mudou os rumos da história brasileira garantindo-nos benefícios políticos e sociais.
A escola tinha a tarefa de ensinar, de instruir, de passar para as novas as informações intelectuais armazenadas pelas gerações anteriores. Livre da incumbência de fornecer instrumentos básicos para os relacionamentos entre pessoas – tarefa de competência da família – ela completava nossa educação. Como já íamos sabendo o básico – pedir licença, quais os limites do nosso espaço, a importância da reciprocidade do respeito nas relações – ficavam a cargo da instituição a erudição, o conhecimento, o estudo, o saber. Escola e lar – cada um com funções definidas e claras — eram os termos principais da ação educativa. No processo, naturalmente despontavam os nossos sentimentos de deveres para com o Estado, concomitantes ao despertar da consciência dos nossos direitos civis e políticos.
Nove de Julho é feriado importante, associado às atuações do povo paulista sobre Liberdade, Voto Secreto, Voto Feminino, eleições livres, independência dos três poderes: não deveria ser encarado apenas como outro dia de folga no picotado calendário brasileiro. Porém, em decorrência das mudanças relativas às tarefas da educação nas escolas; da dificuldade das famílias em definir (e cumprir) sua competência e da total descaracterização do conceito de cidadania – pelo menos no que diz respeito à civilidade – é visto como mais natural o povo saber, entender e criticar escalação, técnicas, estratégias de times de futebol, que saber, entender e criticar atitudes políticas de vereadores, deputados, senadores, ministros e as próprias ações do Presidente da República.
CD
Emoções Sertanejas: músicas do Rei cantadas pelos cantores e duplas mais importantes do gênero. Milionário e José Rico arrepiam. Gian e Giovanni, excelentes. Rio Negro e Solimões, num de seus melhores dias. Do fundo do meu coração – está na voz de Daniel. Paula Fernandes e Dominguinhos, afinadíssimos no Caminhoneiro. Um bom CD. Perfeito para beira de rio e lá, fim de tarde, ver a Lua subindo atrás dos montes.
TRÂNSITO
Uma possível solução para o infernal trânsito francano: tirar de circulação os carros “Fórmula Zero” aqueles que, diferentemente dos carros zero (que vêm “com tudo”), circulam “sem nada”: sem farol, sem buzina, sem breque, sem pneu decente, sem seguro e, claro, dirigidos por alguém que também não tem carta e documentação legal do veículo.
FRANCAL
Mais um sucesso! Parabéns aos diretores da feira; expositores; anônimos cujo trabalho é fundamental para a realização do evento e ao GCN, que cobriu, divulgou e informou – de maneira sensacional – tudo que rolou por lá. Parece que todos que foram estão voltando com o sentimento de dever cumprido.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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