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Por Andréia Xavier O ano era 1915 quando surgia no cenário francano o jornal Comércio da Franca. A cidade estava com 90 anos e sua população se dividia em 82% que viviam na zona rural, e os 18% restantes viviam na zona urbana - estimadas em 12.700 pessoas, totalizando com a população vizinha que fazia parte da comarca, cerca de 20 mil habitantes. Sua indústria de calçados era incipiente, e foi por esses tempos que apareceram as fábricas Jaguar e Peixe, que constituíram a base da indústria local. Mas por aqui já tínhamos também fábrica de fogos, de cerveja e curtume, entre outras de artigos diversos menores. A cidade contava com dois jornais de publicação frequente e alguns periódicos com publicações literárias, boletins e representativos de grupos. O rádio chegaria apenas na década seguinte. Assim, o interesse pela leitura de jornais era muito grande, como único meio de comunicação de massa. A principal riqueza era gerada pelo café e, no meio transporte, Franca servia-se pela rede ferroviária da companhia Mojiana - na estação eram embarcadas sacas e mais sacas de café com destino a exportação. Com sua riqueza, os fazendeiros haviam erguido seus casarões em torno da praça central por onde “uma verdadeira febre de automóveis” (em número de quase uma dezena) circulavam trazendo a novidade do cheiro de gasolina e som de buzinas para os francanos da época. O comércio local era formado por negócios familiares: cafés, armarinhos, armazéns, loja de tecidos, hotéis, pensões, bares, restaurantes, armazéns de café, milho e arroz, atacadistas, empórios de secos e molhados, entre outros. Profissionais liberais como alfaiates, sapateiros, chapeleiros, seleiros, serralheiros, entre outros, com formação mais técnica, em sua maioria imigrantes ou descendentes, além dos muitos mineiros que aqui se estabeleceram, seguiam expandindo o povoado local com novos loteamentos. Entre eles a Vila Chico Júlio, a Vila Nicácio e Santos Dumont, e contribuindo “para o engrandecimento de nossa terra”, como publica o Comércio da Franca em sua primeira edição. A população passeava por largos arborizados, divertia-se nos cinemas, teatros, retretas e nos sarais que aconteciam nas casas dos que compunham o grupo de moradores mais influentes. Seus filhos estudavam no Grupo Escolar Cel. Francisco Martins, e depois, na escola média, separavam-se rapagotes e moçoilas no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, nos externatos dos Irmãos Maristas e São José, e também no Colégio Técnico Industrial. Os anos que se passaram entre a primeira e a segunda décadas do século passado foram de transformações: ocorreu a primeira grande guerra, o naufrágio do Titanic e o início da revolução russa que instituiu o regime comunista naquele país. Nasciam movimentos artísticos como o cubismo, o dadaísmo e, na música, surgia o jazz. Foi neste cenário que um homem descrito como “pacato, silencioso” tomou para si a responsabilidade de representar “o esforço dos industriais, a tenacidade dos agricultores, a firmeza e crédito dos comerciantes e capitalistas da praça” para dar-lhes voz e promover diálogo da cidade consigo mesma, fundando o jornal Comercio da Franca. Era José de Mello, um tipógrafo nascido em 5 de junho de 1886 em Ribeirão Corrente, vindo ainda na infância para viver em Franca. José de Mello foi proprietário da Casa Mello Livraria, Papelaria e Tipografia e, décadas mais tarde, da livraria Central, na Praça Barão. Além do Comércio, seu nome também está ligado ao surgimento de mais dois periódicos em épocas distintas: O Bandolim (1914-1915) e O Comercial (1928-1930). Conta-nos o Sr. Rui Barbosa Luz, que ainda se recorda dele: “Um homem inteligente, de pouca prosa, mas com um senso de humor refinado, muito magro... Tinha facilidade em se expressar, embora não o fizesse muito”. A neta Heloísa Helena Mello Meneghetti confirma o avô silencioso, mas assertivo. “Quem falava mais era minha avó, ele era mesmo muito calado, mas fazia questão de estar sempre entre livros”. A divulgação do conhecimento era, segundo a neta, o que mais importava a José de Mello. Casou-se com Irene Grecco, que era mesma filha de grego - o sogro, que não falava português, vivia com eles. Teve seis filhos, sendo apenas um rapaz. As moças todas se formaram professoras, tamanha paixão por leitura e por livros encontraram no pai. “Uma cidade enriquecida por um passado jornalístico de mais de 60 órgãos de publicidade, número assombroso para uma localidade remota das fronteiras paulistas”, (como nos diz Afonso de Carvalho, no Almanaque da Franca de 1912); encontrou no homem José de Mello uma porta voz que declara: “Procuraremos evitar as dissensões pessoais, escolhas em que geralmente soçobram nos jornais do interior”. É verdade, nos rincões de interior brasileiro, cheio de coronéis e politiqueiros, inúmeros jornais e pasquins surgiam para dar voz àqueles que buscavam se enaltecer ou atacar os rivais ideológicos e políticos. Mas não no caso de José de Mello e seu Comercio da Franca. Um homem preocupado com o lugar onde vive, pondera: “só daremos guarita às questões particulares quando o indivíduo tenha contribuído para o engrandecimento ou depreciação da coletividade”. E assim o jornal Comércio da Franca teve a sua primeira fase muito dirigida a publicações literárias, divulgando e enaltecendo, por ocasiões criticando e cobrando o progresso desta cidade. José de Mello foi proprietário do jornal de 1915 a 1920, quando o vendeu ao Sr. Vicente de Paiva, continuou na lida com tipografia e livraria, vindo inclusive a fundar outros jornais, como já citado, e faleceu em 5 de maio de 1970, quando contava com 84 anos. |
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