O ex-jogador José Guilherme Baldocchi, 64, que atuou na Seleção Brasileira tricampeã da Copa do Mundo de 1970, no México, explicou a derrota do Brasil para a Holanda como resultado de uma instabilidade emocional somada à falta de um craque que jogasse na frente, que preocupasse o adversário, e ao desempenho mediano de jogadores essenciais como Kaká, Robinho e Luís Fabiano. Por outro lado, pondera que a Holanda jogou bem.
Nascido e morador em Batatais, Baldocchi atuou profissionalmente nos times do Batatais (1963 e 1964), Botafogo de Ribeirão Preto (entre 1964 e 1965), Palmeiras (1966 a 1971), Corinthians (1971 a 1975) e Fortaleza (1975). Zagueiro premiado em campeonatos paulistas, foi convocado para o Mundial do México em 1970, poucos meses após ter se casado com a sua mulher, Dinah Maria.
Baldocchi atuou como reserva no time - uma constelação que incluía Gérson, Jairzinho, Rivellino, Tostão e o rei do futebol, Pelé (que estava em sua quarta e última Copa do Mundo), - que entrou para a história do futebol mundial como uma das melhores seleções de todos os tempos.
De volta à rotina, já com a taça na mão, o campeão, que hoje declara abertamente ser palmeirense, continuou jogando em seu time do coração até que, para a alegria de sua sogra, foi contratado pelo Corinthians. A aposentadoria veio com uma lesão -quando já jogava no Fortaleza - que o afastou dos campos em 1975.
Além da vitória no mundial, outra forte emoção pela qual passou é relativamente recente. Baldocchi foi um dos 109 brasileiros campeões mundiais homenageados no 56º congresso da Fifa, realizado em 2006, em Munique, na Alemanha. Na ocasião, recebeu uma réplica em miniatura da Taça Fifa e pôde reencontrar os antigos colegas de gramado.
O ex-jogador, cuja família atua no setor madeireiro, assiste aos jogos na casa dele junto com familiares. Ou melhor, quase junto. “A minha mulher fala demais. A bola tem 0,01% de chance de não entrar e ela já está gritando que perdeu o gol”, conta com bom humor.
A solução que ele encontrou foi ligar a TV do quarto e assistir de seu jeito, analisando e sem o som das emissoras, já que se enche com os narradores e comentaristas.
Comércio da Franca - A primeira pergunta não poderia ser outra: por que o Brasil perdeu para a Holanda e deu adeus ao Mundial da África do Sul?
José Guilherme Baldocchi - O Brasil jogou bem no primeiro tempo e não conseguiu repetir o mesmo desempenho no segundo. O primeiro gol da Holanda causou uma instabilidade enorme nos jogadores que estavam em campo. O exemplo mais claro foi o Felipe Melo que perdeu a cabeça e provocou uma falta desnecessária que lhe rendeu uma expulsão de forma direta. A partir daí, a seleção degringolou. Eu sabia que ninguém ia conseguir consertar. Eu já havia falado que, se o time tomasse, um gol numa partida decisiva ia complicar tudo. E complicou mesmo.
Comércio - Você já esteve num mundial, conheceu a pressão que é fazer parte de uma seleção brasileira. Com a sua experiência, como você imagina que os jogadores estão se sentindo? Você já experimentou situações de grandes derrotas em sua carreira?
Baldocchi - Eu, graça a Deus, quando fui para a Copa, fomos campeões. Mas eu posso imaginar a dor que estão sentindo. Eu tive esta experiência (de derrota em um Mundial), mas fora do campo. Estava nas arquibancadas na Copa de 1990, na Itália, quando o Brasil perdeu para a Argentina por um a zero (o Brasil terminou em 9º lugar). Depois, na Alemanha, em 2006 (quando o Brasil perdeu para a França nas quartas de final). É uma sensação horrível. Uma dor fria, uma sensação de impotência. É como se tivéssemos perdido uma guerra.
Comércio - Como você descreve a emoção de ter representado o País no campeonato mais importante para o futebol brasileiro?
Baldocchi - A gente sente um orgulho muito grande. Primeiro, um orgulho pessoal, já que sempre almejamos chegar à Seleção. Trabalhei no Batatais, no Botafogo e, quando eu cheguei ao Palmeiras, a exposição foi maior e eu tive a oportunidade de ser convocado e participar da Copa do Mundo.
Comércio - Como avalia o desempenho da seleção nesta Copa do Mundo?
Baldocchi - A minha opinião, desde o início, era de que o Brasil não tinha um plano B e, se saísse daquilo (plano A), teria dificuldades pelas características dos jogadores. Estávamos carentes de um jogador de frente que pesasse, que desse preocupação. O Kaká não jogou bem, o Robinho também não. O Luis Fabiano é um jogador que depende demais de alguém que chegue com ele, sozinho não faz nada. E a instabilidade emocional a partir do primeiro gol da Holanda o abalou muito. A Holanda apostou no Robben, um ‘ponta’ que conseguiu desequilibrar tudo fazendo aquela palhaçada, caindo. Não se pode deixar um ‘ponta’ fazer aquele reboliço todo que ele fez e não ter ninguém para pará-lo. Mas temos que dizer que a Holanda jogou bem. Claro que o Brasil era superior, mas teve grandes falhas. O segundo gol foi feito por um baixinho, sem ninguém marcar, isso não pode acontecer. Mas futebol é isso mesmo.
Comércio - Quais foram os principais erros do Brasil e o que foi acerto?
Baldocchi - O Dunga joga de acordo com a tabela, mas não é errado. Ele arma primeiro um sistema defensivo bem sólido para depois contra-atacar. Minha preocupação maior sempre foi com os jogadores do meio de campo do Brasil. Falta criatividade, faltam jogadores que saem de trás e vão atacar na frente. Uma coisa que sempre me preocupou é que, se o Brasil estivesse perdendo, teria muita dificuldade para reverter, porque uma equipe que faz gol no Brasil coloca até com o massagista para a frente do gol para atrapalhar e fica muito difícil jogar. Aí teria que sair um gol de falta, um gol de escanteio.
Comércio - Depois da derrota, muitos comentaristas disseram que a culpa da derrota, se é que podemos dizer assim foi do técnico Dunga. Você o considera um bom técnico?
Baldocchi - Considero. Ele não era treinador, mas foi um bom jogador. Tem uma personalidade muito forte, participou de Copa, foi capitão, foi campeão. Tem tudo que um treinador precisa para ter o respeito dos jogadores. Ele entende de futebol, participa dentro de campo e, dentro da cabeça dele, formou um grupo coerente, que jogava por ele, com ele, para ele. O Dunga formou um time bom.
Comércio - Hoje, quando vê a seleção entrar em campo, o que sente?
Baldocchi - Saudade. Revivemos os momentos que passamos em 1970 e vivemos os momentos de hoje, em que a equipe estava subindo gradativamente. Vivia uma fase de ascensão até perder a cabeça no jogo com a Holanda. Faltou mais maturidade.
Comércio - Você acha que o seu futebol teria lugar na seleção atual?
Baldocchi - Teria e, sem falsa modéstia, seria muito mais fácil jogar. Em minha época, não jogavam três ou quatro volantes de marcação em sua frente. Você tinha de se virar sozinho. O Palmeiras (um dos times que ele jogou) era um dos únicos times que ganhava do Santos, que tinha um time quase imbatível. Tínhamos o Dudu, que era o volante que jogava na frente do zagueiro, que sempre ajudava na marcação do Pelé, do Coutinho, mas hoje não. Para jogar na defesa, você tem que saber saltar bem, cabecear bem. Hoje não tem espaço para o atacante ficar te judiando numa lateral. Os espaços são preenchidos por muita gente, por uma linha de quatro zagueiros, uma linha de três ou quatro volantes e um ou dois jogadores mais para frente.
Comércio - E craques como Pelé e Garrincha fariam o mesmo sucesso no futebol atual que fizeram no passado?
Baldocchi - Fariam sucesso tranquilamente. Eram jogadores muito técnicos. Naquela época, o jogo era mais duro, mais pesado, deixava-se correr. Não tinha tanto cartão amarelo e expulsão como há hoje. Eles sofriam. O Garrincha sofria demais, batiam, batiam e, mesmo assim, ele ia para cima dos caras, driblava. Hoje ele jogaria mais fácil. Daria uns dois ou três dribles, levaria um pontapé, sairia um cartão e seria tranquilo.
Comércio - Embora você não tenha entrado em campo, talvez tenha tido a mais difícil tarefa que foi treinar com os titulares. Como eram os jogos titulares contra reservas na Copa de 70?
Baldocchi - Nos treinos, saía até fogo. Participei do grupo do início ao fim. Os treinamentos eram puxados, eram jogos dos titulares contra os reservas, não tinha moleza. Eu tinha que jogar contra o Pelé, o Rivellino, o Gérson. Hoje eles fazem treinos com um ou dois toques, só um “bobinho”. E outra: quem está na reserva sofre mais do que quem está jogando. Quem joga, joga hoje e descansa amanhã e quem não jogou tem que treinar. Dentro do campo, você não sofre, jogando mal ou bem. Aqui fora você fica assistindo e sofre, participa mas de uma forma diferente.
Comércio - E por que há essa diferença?
Baldocchi - Era mesmo muito diferente. Nos treinos, às vezes, acontecia de o jogo ficar duro, muito violento, e eles (titulares) diziam “vamos mais devagar”. Mas nós falávamos “calma, que vocês já estão convocados, nós ainda não. E vocês têm lugar garantido, nós ainda não”. Então era assim. Isso aí foi em 1958, em 1962, em 1966 e não só em 1970. A gente tinha que batalhar para poder ir. Além disso, não tinha o número de substituições que há hoje, nem todo mundo ficava no banco, era limitado, nem me lembro mais a quantidade de jogadores. Sinto-me tricampeão do mundo porque participei do trabalho, da luta.
Comércio - Quem são seus ídolos no futebol?
Baldocchi - Antes de eu ser jogador profissional (antes de 1964), admirava o Mazzola (Palmeiras), o Mauro (São Paulo), o Bellini. É uma geração anterior à minha. Depois tive a oportunidade de jogar com eles no fim da carreira deles. E mais tarde tive a oportunidade de conviver com eles na seleção. O Pelé é meu ídolo. Eu era torcedor do Palmeiras e fui jogar contra ele para depois jogar com ele (na Copa). Atualmente admiro demais o Ganso (Paulo Henrique, jogador do Santos), que é um craque. É um articulador, é novo e sabe o que quer, sabe o que fazer com a bola. É um jogador nato. Isso não se fabrica. Isso é dom, talento.
Comércio - Você alcançou um sonho que pertence a muitos meninos que elegem o futebol como profissão que é ser escalado para compor a seleção. Conseguiu ganhar dinheiro com o futebol?
Baldocchi - Ganhei. Embora seja bem diferente de hoje. O que eu ganhava em um ano, hoje os jogadores de times grandes ganham em 15 ou 20 dias. Além de salário, eles têm publicidade, televisão, uma série de coisas. E o mais importante: o passe é do jogador, em minha época o passe era do clube.
Comércio - O que o futebol representou em sua vida?
Baldocchi - Tudo, tudo. Se eu pudesse voltar no tempo, sem dinheiro, sem nada -quando eu comecei meus pais trabalhavam, me davam estudo, me davam tudo, mas não tinha automóvel, não tinha bicicleta, tinha a vida normal que podiam me dar e agradeço até hoje -, voltaria lá atrás para poder começar de novo. Foi a melhor época da minha vida. A esperança de subir, de crescer. Isso não tem preço. Isso nada apaga.
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