Precursor do copiado modelo que integra redações de diferentes mídias, o jornalista Corrêa Neves Júnior, diretor-executivo do GCN Comunicação, está diante de um novo desafio. Neste mês de julho, colocará no ar o novo portal do grupo que administra. Levando-se em consideração o fato de a empresa estar sediada em uma cidade do interior, não é pretensão exagerada afirmar que o projeto significará uma revolução regional no jeito de informar.
Com um nome fácil de memorizar e ágil para acessar -www.gcn.net.br - o novo portal não será apenas uma extensão do jornal. Surpreenderá pelo conteúdo. Vídeos, making-ofs, trechos de matérias não reproduzidas no jornal, espaço para interação com o internauta e atualização constante serão disponibilizados nesta plataforma de comunicação. “Estamos dando apenas o start. São infinitas as possibilidades e estamos aqui prontos para o desafio”.
A entrevista a seguir foi gravada em duas etapas. No intervalo entre as duas conversas, em que não se passaram 30 dias, Júnior se deparou com o desafio muito antes do que pudesse imaginar e firmou parceria com a TV Bem para a produção de conteúdo de um novo canal de TV a cabo em Franca. Saiba detalhes do novo portal e como a televisão passará a fazer parte da vida do jornal.
Comércio - Como nasceu a ideia de se criar um portal?
Corrêa Neves Júnior - Boa parte das pessoas imagina que a vida tem um grande planejamento. Ela não tem. Tem uma boa dose de improviso com algum planejamento. Temos o site desde 1996, fomos um dos primeiros jornais do Brasil a ter, mas o fato é que ficamos mais ou menos na mesma coisa durante muito tempo. Era só reprodução de notícias que o jornal publicava. Já numa segunda fase, passamos a ter um controle mínimo de acesso e medições. O conteúdo foi ampliado. Agora, um portal pensado sistematicamente como um produto de conteúdo jornalístico, com vida própria, nasce nos próximos dias. É um produto pensado não em função de um jornal impresso. Inspirado nele, sim, mas ele foi pensado a partir de alguém que vai se comunicar e se informar através de um site. E que surge a partir da constatação óbvia de que o mundo muda rapidamente e de que é preciso se adaptar. Estamos improvisando - com planejamento - para nos adaptarmos a este novo mundo.
Comércio - O que o portal apresentará de diferente?
Júnior - Acho que a grande diferença é o conteúdo. O portal não será apenas uma extensão do jornal. Será um lugar onde será possível ver a grade de programação da Rádio Difusora, mandar currículo para emprego, ver vídeos, trechos de matérias e fotos não reproduzidas no jornal, atualizações ao longo do dia e blogs. O portal agrega outros valores. É uma outra plataforma para a gente se comunicar.
Comércio - O Comércio da Franca já está caminhando para o seu centenário e lança um portal moderno. É um momento revolucionário?
Júnior - É algo revolucionário dentro do contexto em que ele está inserido. Claro que há grandes grupos de mídia fazendo grandes portais no mundo inteiro. Essa não é nossa pretensão. Se imaginarmos um órgão de imprensa regional, sediado em uma cidade do interior, que vive dos recursos desta cidade e que informa esta população, aí, acho que a gente é revolucionário. Apostamos antes de todo mundo na integração de redações... Até fico feliz de um jornal da capital, como é o caso da Folha de S. Paulo, um referencial de seriedade, fazer o mesmo. Mas, para nós, é notícia velha. Temos a redação integrada há três anos. Neste contexto, o que vamos fazer no portal é revolucionário. Vamos prover conteúdo que tem a ver com a nossa região.
Comércio - O jornal pauta muito as relações entre as pessoas na cidade. O que você acha que vai mudar em relação ao portal?
Júnior - Acho que a única coisa que vai mudar é a introdução da conversa. As pessoas, cada vez mais, vão deixar de falar: “Você viu o que estava no jornal hoje de manhã?” Talvez vão dizer: “Você viu o que deu no site do GCN agora?”. Acho que isto é o que vai mudar. As pessoas estão mudando o jeito de se comunicar e precisamos nos adaptar a esta tendência. Vamos migrar para um ambiente diferente e seremos mais instantâneos. O leitor vai se informar pelo celular, pelo livro eletrônico, em trânsito ou no trabalho. Onde ele estiver, vamos informar. E vamos continuar pautando as conversas.
Comércio - Como ficará o jornal impresso com as atenções voltadas ao portal? O leitor habitual que gosta do jornal, que gosta de colocar a mão no papel, terá o mesmo produto, a mesma qualidade?
Júnior - A qualidade será mantida. Há uma tendência que o jornal impresso perca progressivamente o seu modelo de sustentação econômica. Para que um jornal impresso seja bem sucedido, ele precisa de tantos mil exemplares para dar retorno. Em algum momento, acredito que este modelo vá se fragilizar. Quando, eu não sei, mas é uma tendência irreversível. Num mundo onde você pode ter informação instantaneamente, não tem sentido no longo prazo você esperar 24 horas para recebê-la embalada em sua casa.
Comércio - O jornal impresso vai desaparecer um dia?
Júnior - Nos moldes em que conhecemos hoje, acho que vai acabar. Não acho que seja uma coisa para muitas gerações, não. Acredito que seja relativamente rápido, talvez pouco mais de uma década. Somos de um tempo em que não havia celular. Hoje, ninguém imagina a vida sem este aparelho. Temos que nos acostumar com a ideia de transformação. O relevante é que as pessoas vão continuar se informando. Cabe a quem produz conteúdo, que é o nosso caso, adequar sua distribuição à demanda daquele mercado. Enquanto o mercado continuar comprando o impresso, vamos fazer o melhor impresso possível. Estamos investindo para melhorar o processo de impressão, mas, também, estamos prontos para oferecer conteúdo em mídias digitais.
Comércio - A transformação significa uma mudança implícita no próprio profissional?
Júnior - Este é o grande desafio. Com as dificuldades impostas pela legislação hoje em dia as pessoas ingressam muito tarde no mercado de trabalho. Muitas vezes, o primeiro emprego vem só depois da faculdade. Quando chegam ao mercado, essas pessoas não estão preparadas. As empresas, então, assumem para si uma responsabilidade que não é delas e passam a ter que ensinar. Um profissional para trabalhar num ambiente multimídia, instantâneo, tinha que estar muito mais preparado do que o profissional formado para uma única mídia. Ele tem muito menos tempo para errar, tem que ser preciso. Não é o que temos visto.
Comércio - O site do jornal é inteiramente liberado ao leitor. Como será o acesso ao portal?
Júnior - Na verdade, hoje, o que a gente oferece no site é liberado. Vários exemplos no mundo estão mostrando que esta não é a melhor equação. Existe um problema: fazer bom jornalismo custa, e custa caro. Profissionais, equipamentos, tudo custa muito. Para que a gente tenha condições de falar grosso e defender a população, é preciso ter independência financeira. Esta independência tem que vir da sustentação do veículo pelas suas próprias pernas. No caso do portal, a gente vai ter que encontrar um equilíbrio. Estamos apostando em alguns tipos de assinatura que vão permitir ao leitor fazer sua opção. O assinante do impresso ganhará uma senha que permitirá o acesso ao conteúdo total. Teremos uma assinatura intermediária, que é uma demanda antiga dos leitores: durante a semana, o assinante terá uma senha para acessar a internet e receberá o impresso aos sábados e domingos, quando ele tem mais tempo para ler. Também ofereceremos uma versão para a pessoa que pretende nos acompanhar apenas pela internet. Ele vai pagar um pequeno valor e terá acesso a grande parte do conteúdo, inclusive, com todos os noticiários produzidos pela redação. Quem não quiser pagar nada, continuará tendo acesso à manchete, a alguns blogs e continuará ouvindo a rádio. Para fazer a assinatura, a pessoa pode pagar pelo cartão de crédito, débito em conta de energia elétrica e boleto.
Comércio - Como explicar aos leitores a limitação de acesso gratuito ao portal?
Júnior - É preciso entender que alguém tem de pagar pelo conteúdo oferecido. Quem coloca notícia de graça na internet está copiando de alguém. O Google, que é um “fenômeno”, agrega notícias produzida pelos outros. Alguns jornais já retiraram todo o seu conteúdo do Google. Custa dinheiro ter profissionais qualificados e notícia de qualidade. Aproximadamente 98% da informação noticiosa disponível na internet vem de sites de jornal ou de TV. Ninguém está produzindo sozinho conteúdo de informação noticiosa na internet. Agregar é fácil. Difícil - e caro - é produzir conteúdo. Este é o drama.
Comércio - O Caderno de Classificados estará disponível no portal?
Júnior - Estará disponível, sim. Não imediatamente, mas poucas semanas depois do lançamento.
Comércio - Qual será o nome do portal?
Júnior - GCN.net.br. Vamos bater nestas três teclas. Quanto mais curto, melhor para internet. Tem que ser descomplicado. Mas quem digitar Comércio da Franca ou Rádio Difusora vai cair no mesmo lugar.
Comércio - Será possível folhear o jornal digital?
Júnior - Sim. Para os muito saudosistas, teremos esta opção que é muito bonita visualmente. Com o mouse, será possível virar as páginas do jornal com tudo o que esta ali, poderá ampliar, imprimir, enviar e buscar matérias. Também vamos disponibilizar para os assinantes os primeiros 40 anos do jornal sem custos adicionais.
Comércio - Quando o assinante receberá a senha para acessar o portal?
Júnior - Dentro de duas semanas. Mas é bom destacar que, durante um período, a pessoa não precisará pagar imediatamente. Ela só precisa renovar o seu cadastro e terá, por seis meses, a versão completa de acesso sem pagar nada. Se ela quiser aproveitar a promoção de lançamento, que oferecerá um preço atrativo, será possível antecipar e garantir descontos. O Show de Prêmios, que é nossa tradicional campanha de premiação de assinantes, passa a incluir o assinante da versão digital.
Comércio - Uma das nossas grandes metas é garantir o furo de reportagem na versão impressa. A partir do momento em que o portal passa a ser prioridade, vamos abrir mão da notícia exclusiva no jornal?
Júnior - Na verdade, não. Quem vai dar o furo é o portal. Só muda o endereço, a plataforma. É claro que existem conteúdos, eventualmente, exclusivos por alguma razão, em que você vai selecionar a melhor plataforma para ele. Vamos usar as ferramentas de acordo com o que elas podem nos proporcionar. A matéria analítica, pensada e planejada com antecedência pode ser dada simultaneamente em todos os meios. Ou primeiro no impresso, por exemplo.
Comércio - O lançamento do novo portal pode ser definido como uma nova era?
Júnior - Acho que é. Já entramos em uma nova era. É como um despertar. Tem gente que ainda não acordou e está fingindo que esta realidade não existe. As referências são muito importantes. Minha filha é uma conexão muito direta que tenho com o mundo do qual já estou mais distante, que é esta adolescência. Sempre que comento sobre alguma notícia, ela me pergunta em que site eu vi. Para quem tem 11 anos, o referencial de canal de informação não é nem TV, nem jornal impresso e nem revista. É o site. Para ela, o jeito de saber onde as coisas acontecem é na internet. Ou a gente se prepara para esta realidade ou você naufraga.
Comércio - Como definir esta transformação em poucas palavras?
Júnior - Acredito que seja um momento definidor. Temos ousadia e coragem de fazer as apostas. A redação integrada foi uma ideia pioneira nossa. O nosso portal nasce requerendo uma série de cuidados e ele é o começo. Não é o ponto final. Estamos começando a escrever esta história. O portal vai se transformar radicalmente e vai ter outros conteúdos. Estamos dando apenas o start. São infinitas as possibilidades e estamos aqui prontos para o desafio.
Comércio - Há um mês, quando gravamos a primeira parte da entrevista, você me disse que o portal era apenas um start e que o futuro poderia reservar muitas surpresas. Antes mesmo da reportagem ser publicada, os planos foram alterados e o GCN associou-se a um canal de TV. Como será este novo canal de comunicação?
Júnior - Acabamos de formalizar uma parceria com a TV BEM, uma empresa ligada à GTEC, que é uma das mais tradicionais produtoras de vídeos do Brasil. Espero que até o fim do mês a gente consiga levar o conteúdo jornalístico produzido pelo GCN para a tela da TV. Vamos fazer um jornalismo diário na TV, levando nossa seriedade, nossa independência e nosso jornalismo comprometido unicamente com nosso público. Estamos muito felizes. É uma alegria ter encontrado um parceiro sério, correto, profissional e que tem projetos consistentes para juntar forças conosco.
Comércio - Como se chamará a TV?
Júnior - A TV segue a mesma. É TV BEM. Alguns programas terão a marca do GCN nos conteúdos informativos de jornalismo. Está certo que teremos um programa de jornalismo diário com 30 minutos de duração. Será como fazemos nas páginas do Comércio e na Rádio Difusora. Será um programa com todo o conteúdo que interessa à população. A pessoa poderá ligar a TV e acompanhar o que foi o dia em termos de informação em Franca. Além disso, teremos outros programas que já estão definidos, como o Se Liga, voltado para o público jovem. Também teremos uma atração de entrevistas apresentada pelo Valdes Rodrigues. Estamos formatando um programa de variedades para levar informação descontraída para as pessoas. A ideia é fazer um formato de revista semanal. Estamos trabalhando para fechar o restante da grade nos próximos dias.
Comércio - A TV entrará no ar em um período de campanha eleitoral, o que tornará ainda maior o desafio...
Júnior - O desafio, o estímulo e a empolgação serão maiores. Teremos condições de fazer sabatinas com imagens, o que enriquecerá ainda mais os programas. Já fizemos um trabalho fundamental para os eleitores nas duas últimas eleições. Agora, teremos isto disponível na Internet e no canal 10.
Comércio - Como serão feitos os programas?
Júnior - Eles serão captados, preparados e pré-produzidos em Franca e finalizados em São Paulo, onde há uma equipe muito profissional e capacitada da GTEC.
Comércio - O que o telespectador poderá esperar da participação do GCN na TV BEM?
Júnior - Um absoluto compromisso com a verdade e com a informação relevante - com ética e independência editorial - e o máximo de qualidade possível. Vamos nos esforçar muito. Não entramos nesta empreitada para fazer nada amador. Esperamos fazer tudo com muito profissionalismo, tudo com padrão de excelência, tudo com muita paixão, que é como fazemos o nosso trabalho no Comércio e na Difusora. Este é um momento muito emocionante para nós. Espero que a gente consiga fixar na TV nossas marcas de ousadia, de determinação, de trabalho e de seriedade, todos elementos que nos acompanham há gerações.
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