Quem acompanha o movimento da vida em todas as manifestações onde o homem é protagonista, já terá avaliado em algum momento deste nosso século, prestes a completar a primeira década, que a transformação do mundo nos últimos dez anos foi maior que a soma de todas as mudanças ocorridas ao longo do século XX. Quando o tópico específico é a tecnologia, a rapidez das atualizações impressiona. Pois neste campo há engenhos criados para facilitar a vida do ser humano que mal tiveram tempo de ser experimentados e logo foram substituídos por outros mais completos, leves, portáteis, ágeis, principalmente acessíveis ao bolso da maioria, o que torna as conquistas democratizadas. Um exemplo que sempre vem à baila é o das fitas cassetes, rapidamente substituídas pelo DVD.Tiveram sobrevida mínima, hoje repousam nos museus para contar aos pósteros o capítulo breve que viveram. A propósito, a indústria já se movimenta para acelerar o fim do disco, previsto para os próximos cinco anos; os filmes serão alugados online ou por Blu-Ray.
Existimos num mundo onde as mudanças acontecem num ritmo tão veloz e impactante que tão logo começamos a nos adaptar a um aparelho ou a uma máquina somos instados a mudar para outros. Os celulares ocupam um capítulo à parte nesta história evolutiva, caminho irrecorrível. Chegados ao Brasil nos anos 80, eles eram do tamanho de meio tijolo e tinham o único objetivo de serem telefones móveis. Em pouquíssimo tempo foram acumulando outras funções até chegar ao que hoje chamamos smartphones, celulares que nos permitem não só conversar com nosso interlocutor que pode estar a 100 metros de nós ou do outro lado do mundo, como deles fazer uso para enviar e responder e-mails e tirar fotos. No iPod, não apenas ouvimos as músicas de que gostamos enquanto caminhamos ou desenvolvemos outras atividades, como podemos baixá-las de serviços existentes na Internet e formar nosso infinito álbum singular. A máquina fotográfica é outro emblema do caráter de compactação digital.
Ela se tornou cada vez menor, há muito tempo dispensou filmes, hoje cabe na palma de uma mão infantil. A imagem capturada pode ser levada em segundos ao computador através de um simples cabo e caindo na Internet ganha o mundo. Que dizer então do mais novo rebento digital que é o iPad, sucessor natural do Kindle? Por enquanto é uma tela de 24x20 cm onde podemos condensar uma biblioteca de Alexandria (ou de Washington?) inteira, digitar textos, enviar e receber mensagens, jogar, compor música, ler todos os jornais do mundo que quisermos. Sem nenhum fio, leve, fácil de acessar, lúdico, conquista quem o tenha na mão por meros cinco minutos. As páginas são viradas da esquerda para a direita, de cima para baixo, a um leve toque de dedo. E cabe numa bolsa feminina de tamanho médio. Ficará mais fino do que já é, num futuro bem próximo poderá ter a espessura de uma cartolina. Já está à venda nos Estados Unidos, logo chegará ao Brasil, vai se tornar acessível a todos, como aconteceu com os celulares. E este é o mais importante ponto, pois na medida em que seu uso se disseminar, outra revolução estará em curso.
Da rede mundial ninguém escapa. Na vida prática, os sites de busca permitem a qualquer internauta ver o mapa completo da cidade, o hotel e o quarto onde se hospedará no país que visitará pela primeira vez. A reserva deste hotel, os bilhetes de avião, a escolha das poltronas, tudo é feito pela internet. Neste contexto virtual, torna-se a cada dia mais imperioso conhecer os códigos do novo mundo, ao qual os jovens chegaram primeiro. A mudança mostra-se ainda mais importante ao avaliarmos que ensejou diferentes formas de comunicação que parametraram desde então um diverso estilo de viver. A todo momento, em circunstâncias às vezes inusitadas, somos convidados ao Enter, à entrada em novos processos de conhecimento e interação, a uma abertura para este novo que rapidamente aponta para outros. O admirável mundo contemporâneo mais do que nunca é desdobrável.
Qualquer empresário atuante hoje no mercado, que tenha as raízes de sua empresa fincadas no século passado, terá se sentido pressionado, nos últimos dez anos especialmente, a aderir às novas tecnologias por uma questão de sobrevivência. Os próprios consumidores o exigiram, na busca pela excelência, desejo imanente à sociedade de consumo. Da modesta adesão ao código de barras ou às câmeras de segurança, à atualização de dados do estoque ou ao controle da movimentação bancária, tudo mudou e rápido. No jornal Comércio da Franca também. Quando me transporto a meados de 1973, ano em que adquirimos de Alfredo Costa o jornal, vejo que ali encotráramos um universo quase artesanal. Nele pontificavam os clichês - placas de metal onde se gravavam imagens na fotomecânica; a linotipo - máquina enorme que fundia em bloco cada linha de caracteres tipográficos; as máquinas de datilografia, pesadas, geralmente da marca Remington, que tiveram como sucessoras as composers; o past-up que pedia cola, tesoura e infinita paciência; e a plana, rudimentaríssima impressora.
É surpreendente que por tanto tempo este modelo tenha funcionado bem, e que tenha se mantido quase inalterado naquele mundo que hoje vemos lento, transcorrendo ao sabor das horas que pareciam intermináveis. Reflexo dele, delas, eram páginas como a que Corrêa Neves baniu tão logo assumiu a direção do jornal: uma nobre, não me lembro se a 3 ou 5, ocupada em sua metade pela relação dos assinantes que tinham aniversariado na semana anterior; ou aquelas onde as notícias já eram tão velhas que não se justificavam mais. Quando olho no nosso parque gráfico a CTP (Computer to Play) que acabou de chegar e vai extinguir mais um processo que durava há pelo menos dois séculos, ou seja, o da gravação de chapas, constato que a inteligência humana é extraordinária quando direcionada à evolução, ao crescimento, à expansão. O CTP dispensará filmes, chapas, química; o produto final ganhará mais qualidade; até o meio ambiente vai agradecer.
Enxergo hoje, com a lucidez que só o afastamento no tempo possibilita, que o princípio da agilidade e da busca de modernidade passou a ser o objetivo principal da informação impressa a partir do final dos anos 70. E essa intenção foi perseguida com garra, num crescendo, por todos os que trabalharam com Corrêa Neves, capaz de manter a rotativa parada e dois jornalistas a postos nas madrugadas em que, do outro lado do mundo, Airton Senna disputava corrida em algum autódromo. O Comércio surpreendia seu leitor que só teria nas suas páginas a informação que queria, se não tivesse conseguido se manter acordado até às quatro da manhã. O que hoje parece quase absurdo, era um importante ganho do Comércio naqueles anos onde a Internet não existia.
De forma geral, no final do século passado os jornais impressos, que tiveram em Gutemberg a primeira matriz, intuíram logo que se desenhava novo perfil para a comunicação. Foi nos brainstorms patrocinados pela ANJ, Associação Nacional de Jornais, e pela WAN, Associação Mundial de Jornais, no País e no Exterior, que esta tomada de consciência se tornou explícita e trouxe consigo um enorme desafio. Presente a estes encontros, como associado, convidado e palestrante, o jornalista Corrêa Neves Júnior, atual diretor responsável do Comércio da Franca, trouxe à redação o recado urgente. Era imprescindível mudar para continuar, redesenhar-se para sobreviver. Ficava claro que a chave estava na convergência cada vez maior com o mundo digital. Não foi fácil encarar os desafios enormes de mudar quando ninguém sabia ainda que direção exatamente tomar. Valeu-nos, contudo, aqui na nossa casa, a lição que vem sendo escrita há quase cem anos pelos que conseguiram trazer o Comércio da Franca até aqui. Desde seus primeiros tempos o jornal perfilou esta característica de instituição capaz de mudar segundo as demandas das épocas que foram se sucedendo. Foi pioneiro com o fundador José de Mello, quando as dificuldades eram imensas no interior para adquirir uma máquina impressora. Com o livreiro Ricardo Pucci, que reconheceu jovens valores e os convidou a formar uma redação que não fosse amadora. Com o politizado Alfredo Costa, que ousou torná-lo um jornal de circulação diária. Com o empreendedor Corrêa Neves, que lhe conferiu personalidade empresarial. Com o revolucionário Corrêa Neves Júnior, que deu o salto corajoso e gigantesco para incorporar novas tecnologia e espírito, integrando-o a outras duas mídias, rádio e portal, e transformando as três em grupo - o GCN.
O jornal Comércio da Franca já se distancia hoje enormemente do que foi no fim do século passado. Agora faz parte do GCN - Grupo Corrêa Neves de Comunicação, onde a informação produzida pelas equipes de impresso, rádio e portal podem ser acompanhadas por todo mundo na plataforma preferida. O jornalismo mantém a sua essência, traz no seu DNA a qualidade de sempre, esta mesma que nos permitirá chegar ao aniversário de 100 anos do Comércio da Franca, em 2015, conectado com o que há de mais avançado em tecnologias, com informação cada vez mais analítica, deixando de ser apenas a fonte do que ocorreu para também antecipar fenômenos e analisar comportamentos e situações. Os fatos estarão sendo atualizados a cada minuto no portal do GCN. Terá mudado então um dos princípios mais antigos do jornalismo impresso: publicar notícias de algumas horas anteriores à sua circulação. Isso terá se tornado coisa do passado. Ou melhor, já é.
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