Em 2008, o governo estadual fez pesquisa para avaliar o grau de satisfação dos usuários do Sistema Único de Saúde atendidos nos 645 municípios paulistas. Foram mais de 350 mil respostas recebidos a consultas por carta e telefonemas. Muito provavelmente inspirada em motivação política, a consulta produziu resultado de dois gumes, um deles particularmente afiado.
Dado ao grande universo do SUS, era natural e até esperado que o levantamento trouxesse números favoráveis ao governo em todos os seus campos.
A outra face da moeda mostrou, no entanto, um aspecto turvo, repleto de números alarmantes, para não dizer escandalosos, mostrando a realidade dura e crua de como parte dos usuários do SUS é maltratada por quem deveria dispensar-lhe, no mínimo, atendimento digno.
O resumo da pesquisa – está no site da Secretaria da Saúde (www.saude.sp.gov.br) –, trás a informação de que em 2008 pelo menos 798 pessoas pagaram por atendimento recebido do SUS, o que é terminantemente proibido. Além das cobranças ilegais, a pesquisa colheu informações sobre pagamentos por atendimentos não realizados efetivamente pura trapaça de alguns prestadores de serviços ao SUS, para dizer o mínimo.
Tem mais: para 7.601 pessoas, o tempo de internação, contado a partir do pedido médico, variou de 21 dias a 6 meses. Outros 2.121 usuários tiveram menos sorte: precisaram esperar mais de 6 meses para serem internados.
Em se tratando dos procedimentos de alta complexidade as coisas são piores ainda: 12.324 usuários afirmaram ter esperado de 21 dias a 6 meses para a realização de exames solicitados em consulta. Mais azaradas foram as 2.872 pessoas que ficaram além de 6 meses esperando por isso.
No tocante a partos em 2008, 42% das mulheres pesquisadas disseram ter recebido remédio para alívio da dor durante o procedimento, mas 15% receberam apenas banho morno, massagem ou exercício na hora de dar à luz. A própria Secretaria da Saúde reconhece, no relatório da pesquisa, que o atendimento do SUS às parturientes ainda é bastante falho.
Quanto ao fornecimento de remédios de alto custo a situação não é muito diferente para milhares de usuários do SUS pesquisados: 6.720 disseram que só receberam parte dos medicamentos solicitados e 1.977 simplesmente não tiveram acesso aos medicamentos. Entre os pesquisados, 33% relataram a falta de vacinas nas unidades do SUS, havendo algumas dezenas afirmando que pagaram para receber a imunização, o que também é proibido.
Para o governo, que se escuda nos números a ele favoráveis extraídos da pesquisa, é claro que o atendimento à saúde oferecido pelo SUS está às mil maravilhas. Para alguns milhares de usuários, no entanto, o governo deveria encarar como insuspeitos os dados negativos da pesquisa e corrigir as falhas para que o próximo levantamento dessa natureza não mais apresente números tão assustadores como os coletados.
José Crespo
Vereador em Sorocaba e professor universitário
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