De volta à rotina


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A seleção brasileira de futebol perdeu. Os dois a um para a Holanda, mais do que a eliminação do time canarinho da Copa do Mundo da África, significa que o País retorna à sua rotina. Nada mais de acordos, descansos e horários alterados nos dias de jogos. Nada mais de atendimento médico restrito, lojas fechadas ou creches lacradas nas partidas do escrete nacional. O Brasil descalça as chuteiras e volta ao seu dia-a-dia. O melhor futebol do mundo - que, a maioria reconhece, não esteve representado à altura na África do Sul - deixa o torneio, pela primeira vez, depois de vinte anos, antes de chegar à semifinal. Campeão em 1994 e 2002, saiu em 1990 nas quartas de final. Depois disso, em 1998 perdeu a final e em 2006 caiu nas semifinais (ambas as vezes contra a França, que também já se despediu da África do Sul).
 

Da derrota de ontem há várias lições que devem ser assimiladas e reconhecidas como positivas, mesmo diante de um fato tão negativo para toda a Nação brasileira. O técnico Dunga, que deve estar com as orelhas quentes por conta das críticas dos que defendiam um time mais ofensivo e menos burocrático - ele deixou para trás craques como Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Ganso, preferindo Felipe Melo, Kléberson e Júlio Batista, além de Grafite -, precisa entender que não dirige um clube qualquer. A seleção brasileira, em cada um dos jogos que disputa, é motivo de orgulho nacional e com ela, como diz a frase do ônibus utilizado na África, carrega mais de 180 milhões de torcedores. O futebol no Brasil é paixão, mas o brasileiro exige que se jogue bonito também. Que a seleção apresente o talento do jogador brasileiro. Desta vez, repetindo 1990, não foi o que se viu. Tal qual Lazaroni - que prescindiu à época do craque Neto pelo ‘grupo fechado’ -, Dunga (que personificou o espírito daquele time) preferiu um estilo europeu (do time titular, só Robinho vinha jogando nos últimos seis meses no Brasil) e amarrou os talentos, além de deixar vários outros para trás.


Já o torcedor brasileiro - que ainda necessita de heróis esportivos para reverenciar e, assim, reforçar a altivez nacional - precisa aprender a cultivar as suas próprias qualidades. A seleção brasileira é, sim, orgulho nacional. A camisa amarela (em qualquer esporte), curiosamente, também é a maior expressão do patriotismo nacional. Mas o brasileiro precisa, a partir de agora, cultivar o sentimento patriótico por conta do momento em que vive o País, com a sua economia sólida, os indicadores positivos e a capacidade de enfrentar uma crise global com a tranquilidade que outras nações, ditas mais preparadas (como EUA, Reino Unido e Alemanha, entre outras), não conseguiram. Enquanto o barco brasileiro singra águas mais tranquilas, outros países continuam enfrentando as tempestades das atribulações da economia, com desemprego alto, dinheiro curto e instituições solapadas pelas incertezas. Já passa da hora de deixarmos de buscar heróis e tornarmo-nos nós mesmos os vitoriosos diante da importância de nosso País - que tem dado seguidas lições aos que estão deixando de ser protagonistas da política e da economia do planeta. O mérito não é de um só: é de cada um dos mais de 180 milhões de brasileiros. Que são 180 milhões de heróis.

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