Na manhã do dia 27 de maio deste ano, a cartorária Maria Timóteo Martins Cardoso, 52, repetiu a rotina que tem todas as manhãs na chácara onde reside no Condomínio Parque do Mirante, na estrada entre Franca e Claraval (MG). Sintonizou o rádio na Difusora AM para ouvir o noticiário enquanto se aprontava para viajar e trabalhar em Franca. Ouviu que havia acontecido um acidente com vítima fatal na Rodovia Tancredo Neves, a mesma pela qual o filho passava todos os dias para ir trabalhar na Prefeitura de Claraval. Quando o repórter anunciou que a vítima pilotava uma moto azul, Maria ficou apavorada porque era a cor da moto do filho. Tentou falar no celular dele, mas estava na caixa postal. Momentos depois, escutou a confirmação que mais temia: era Gabriel Martins Cardoso, o filho de apenas 25 anos, que havia perdido a vida sobre a moto. Ele bateu na traseira de um caminhão e morreu no local. A moto ficou presa entre o pneu e a carroceria. Suspeita-se que o sol tenha ofuscado sua visão. O rapaz faria aniversário dia 2 de junho.
Maria e o marido, o funcionário público Getúlio Cardoso, 58, se abraçaram, choraram e gritaram juntos pela perda do filho mais velho. O casal tem mais dois filhos: João Paulo, 24, e André, 23. “Fiquei sem chão, foi como se tivessem jogado uma bomba em cima de mim”, disse ontem, chorando.
Na chácara onde moram, o quarto de Gabriel continua montado. A cama permanece arrumada, as roupas dobradas sobre a mesa e no guarda-roupas. A toalha de banho que usou pouco antes de se encontrar com a morte, continua pendurada, intacta, como ele deixou. Sempre que sente saudade do filho, Maria vai até o quarto. Abraça todos os dias uma camiseta que ele havia usado. “Ainda tem o cheiro dele. Tenho muita saudade”.
Tudo na casa lembra o filho. O pai chora todas as vezes que uma fazenda vizinha toca uma sirene às cinco e meia da tarde. Ele olha para o portão e não vê mais o filho entrar. Gabriel sempre chegava do serviço quando o sinal soava. Os horários coincidiam. A sirene continua, mas o filho não volta mais.
Gabriel passava pelo local do acidente havia seis anos, mas estava prestes a deixar de fazer o percurso de 14 quilômetros de sua casa até a Prefeitura. Entraria de férias para depois assumir o posto de Policial Militar, porque tinha sido aprovado no concurso após a terceira tentativa. “Por mim, ele não seria policial porque acho uma profissão muito perigosa e violenta.
Mas ele queria muito e por fim torci para passar no concurso”. Gabriel estava com a vida engatilhada. Terminaria neste ano o curso de matemática e se não se tornasse policial, poderia atuar em outras instituições. Dez dias após sua morte, os pais foram comunicados que havia sido aprovado para o cargo de auxiliar administrativo na Unesp de Franca. Não houve tempo para que soubesse da boa notícia. “Sempre tive medo de moto, mas meu filho não tinha outra maneira de ir para o trabalho”, lamenta a mãe.
O filho caçula está morando com os pais para ajudá-los a superar a morte de Gabriel. Ele tem moto, mas pela mãe deixaria de dirigi-la. “Queria que ele não andasse mais de moto. Peço para tomar o máximo cuidado, tanto como motoqueiro, como com os outros motoristas de carro porque muitas vezes não é o motoqueiro o culpado”, disse ela, que busca na fé em Deus forças para vencer a dor de perder um filho. “Temos feito muita oração. A gente sabe que Deus está nos carregando no colo”.
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