Dona Dita do Parto


| Tempo de leitura: 4 min

Nunca tivera uma inteligência incomum, mas o bom senso a guiava com segurança. Perspicaz em suas observações, as horas de solidão em que mergulhava permitiam-lhe aconselhar sem jamais ofender. Trabalhara toda a vida como auxiliar de enfermagem no Posto de Saúde daquela pequena cidade, e não havia hora boa ou ruim para sair de casa e socorrer uma mãe prestes a dar a luz, motivo pelo qual as pessoas passaram a chamá-la Dona Dita do Parto. Em sua modesta casa, onde morava sozinha, mantinha, nos fundos do pequeno quintal, um cercado onde criava galinhas, a maioria presente das pessoas que ajudava. Levava assim a vida, entre suas galinhas, a horta e algumas bonecas, mimos também, que gostava de espalhar sobre a cama arrumada. A favorita, grande e careca, sentava-se no rústico sofá da minúscula sala, onde, quando podia, se sentava para ler.


Numa tarde de quarta-feira, ao chegar em casa, após ter ido à cidade mais próxima, uma espécie de sede, por ser maior e ter agências bancárias, deparou-se com um papel dobrado em formato de envelope, enfiado por baixo da porta, com timbre da polícia. Era uma intimação da polícia avisando-a de que deveria, na sexta-feira seguinte, comparecer à delegacia da cidade de onde acabara de chegar. O convite era vago e não mencionava qualquer assunto que pudesse lhe direcionar o pensamento para algum fato específico. Aliás, para fato algum. Sentiu-se, contudo, mal. A noite foi uma agonia. Tão logo amanheceu resolveu que não esperaria até o dia seguinte e decidiu descobrir imediatamente o que estava acontecendo. Conseguiu uma carona com pessoas que trabalhavam na cidade vizinha e antes um pouco das oito horas lá estava. Esperou com a possível paciência que os funcionários chegassem e que a delegacia fosse aberta.


Era a única pessoa na repartição naquele momento e uma funcionária profissionalmente educada a atendeu. Estendeu a intimação em direção à mesma, enquanto explicava que, apesar de estar marcado para o dia seguinte, resolvera antecipar-se por não saber do que se tratava. A escrivã resolveu atendê-la, considerando a distância de onde morava e por ser assunto do qual ela era a responsável. Após algumas perguntas sobre o que ela fazia, do que vivia, de que modo vivia e outras tantas, respondidas de modo direto e cada vez mais curioso, Dona Dita perguntou sobre o motivo de sua presença ali. A resposta bateu como um tijolo em seu peito. Havia uma denúncia anônima de que ela era uma “fazedora de anjos”, ou seja, era responsável por provocar abortos.


 O mundo abriu-se a seus pés, as lágrimas subiram aos olhos e desabaram fartamente. Logo um copo com água apareceu na sua frente. Enquanto tudo em volta perdia o sentido, ouvia a escrivã dizendo que, por se tratar de denúncia anônima e sem vítima apontada, estavam apenas fazendo uma averiguação, mas que não podiam deixar de fazê-lo. Já haviam investigado no Posto de Saúde, onde exercera suas funções, e nada constava que a desabonasse. Todavia careciam ainda de uma ou outra averiguação e, a ela, aconselhava aguardar. Se necessário a chamariam novamente. Abandonou o prédio sentindo-se uma sombra sem sentido. Por instinto seguiu até o local onde pegaria o ônibus para sua casa. Sua casa? pensou -. Não se sentiria mais em casa, nunca mais. Alguém a havia denunciado. Na segurança do anonimato haviam manchado sua vida. Não sabia o que fazer. Uma mágoa homicida a invadiu, mas não sabia para onde dirigi-la.


Chegou em casa sem saber direito como. Quis chorar, mas sentiu-se seca. Pensou em como seria sua vida dali em diante. Estava exausta e derrotada por um inimigo invisível. A violência a que estava submetida ultrapassava a possibilidade de sua razão.


Não se viu mais Dona Dita do Parto pelas ruas. A casa fechou-se. As galinhas haviam sumido, o mato ia tomando conta do pequeno quintal antes tão cuidado. Com o passar dos dias, um cheiro nauseabundo foi empesteando o ar próximo àquela casa, de tal forma que se tornara insuportável para os vizinhos e transeuntes o convívio. Resolveram chamar um sargento aposentado, que era o que havia mais próximo de autoridade policial na cidade, para arrombarem a porta da casa. Assim foi feito.Com um único pontapé a porta veio abaixo. A lufada de fedor quase os arremessou de costas contra a minúscula entrada, apesar de estarem prevenidos com seus lenços úmidos apertados contra o nariz. Aguardaram, por alguns instantes, que parte do ar fétido escapasse.


Entraram cuidadosamente, ultrapassaram a saleta e, à direita, na cozinha, puderam ver, horrorizados, sobre a pia e espalhados pelo chão, os cadáveres putrefatos de galinhas, cujos pescoços haviam sido decepados. Ouviram em seguida um longínquo canto de ninar vindo do quarto. Ao alcançar a porta o sargento estacou estarrecido. Dona Dita do Parto, suja, nua, sentada sobre os próprios excrementos, frente a uma bacia esmaltada cheia de sangue semicoagulado e água, com uma caneca, banhava cuidadosamente a boneca careca, mergulhando-a dentro da estranha poção, enquanto cantarolava com um riso senil e olhar perdido para fora da vida.

 

Mirto Felipim
Poeta, escritor, observador

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários