Estudar uma língua está muito além de saber um vocabulário e organizá-lo normativamente, a fim de se obter comunicação. Conseguimos identificar, por exemplo, diferentes culturas por meio de traços marcantes de uma arquitetura, de uma vestimenta, até mesmo pela culinária. Da mesma forma, com a língua temos um produto histórico, ou seja, com ela conseguimos definir, supor, e compreender, muito melhor, valores de outras sociedades e culturas próximos como também distantes da nossa.
Quando nos aprofundamos na língua portuguesa, notamos uma transformação ao longo dos anos de sua existência e inúmeras diferenças até mesmo com o português de Portugal. Saber exatamente quando essas mudanças ocorreram é um objetivo quase que impossível de se alcançar, no entanto, podemos buscar compreender o motivo das transformações, de acordo com os valores de determinados contextos históricos, sociais políticos, dentre outros, que cercam uma língua.
Como toda cultura, uma língua está sujeita a vários tipos de influências e mudanças. As variações linguísticas se inserem num contexto em que o pensamento normativo do “certo e errado” deve ser substituído para o do “adequado e inadequado”. Ora, aceitar essas variantes não significa negligenciar a norma prevista pela gramática; ao contrário, esta se faz necessária, a fim de termos um padrão na língua que se concentre, principalmente, na inteligibilidade da comunicação entre os falantes, seja oral ou escrita.
Devemos ser flexíveis para com o pensamento normativo e lembrar que a própria gramática possui falhas em suas definições que, consequentemente, não conseguem abarcar a língua em toda sua complexidade. As mudanças surgem diante dos mais diversos contextos e tudo aquilo que parece “errado” possui uma sistematização e uma lógica própria.
Não existe sotaque mais bonito ou correto que outro, tampouco um português mais polido que seja falado num determinado estado ou numa região. Cada língua possui suas particularidades, porém, uma vez que ela representa visões de mundo de diferentes falantes, não há como não passar por transformações.
Existem aqueles que negligenciam o aprendizado do português, considerando-o meticuloso, a ponto de não tornar esse estudo instigante e prazeroso. Por outro lado, há quem prime por um linguajar dito culto, repleto de preciosismos lingüísticos que assinalem sua alta capacidade intelectual. Adornar um discurso com uma eloqüência invejável e, contudo, um vazio de conteúdo, bem como rejeitar ao extremo a própria língua são caminhos extremos e desnecessários.
Infelizmente, a língua como ferramenta social assinala, muitas vezes, a condição sócio-intelectual de um indivíduo. Entretanto, cabe a nós torná-la uma ferramenta de humanização e com base nas mudanças que dela emergem, podemos compreender melhor as mudanças que nos cercam. Dessa forma, é preciso empenho para entendermos e discutirmos as normas que regem o português, ao mesmo tempo em que precisamos de maturidade e sensatez para entender que essas prescrições são possuem grande flexibilidade, a ponto de se apresentar de diversas formas nos mais diversos contextos. Mas isso está certo? Com toda a certeza, está adequado.
Caio Camargo
Linguista e escritor
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.