Ídolos


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Quando o pai e a mãe se filiaram ao time do êxodo rural, eu tinha dez anos, e fomos morar no penúltimo quarteirão da Rua Cavalheiro Petráglia, bem defronte ao campo do Internacional Esporte Clube. Seguindo os passos de moleques espertos Helinho, Diocésio, Valter Aylon, Otrazíbio, Jorge Turco, eu também pulava o muro do campo, aos domingos. Assistíamos aos jogos, escondidos na matinha que existia entre o alambrado e a estrada de terra futura Avenida Santos Dumont. Às vezes éramos surpreendidos pelo Sr. Osvaldo Matias, corríamos feito loucos, saltávamos de volta, íamos para a rua, procurar pequenas gretas no muro, por onde espiávamos alguns chutes e jogadas.


Quando eu tinha dezesseis anos, já havia viajado a algumas cidades, na carroçaria de caminhão, integrando a torcida do Internacional. Até a Ribeirão Preto eu fui uma vez, num dos vagões da Mogiana, alugados exclusivamente para levar nossa torcida.


Eu jogava, então, de zagueiro direito no time do Caramuru Futebol Clube. Não revelava meus desejos, mas sonhava ser zagueiro central como o Luisinho Maritan, cujas atuações tentava imitar. O jogador do Internacional era ídolo meu e de todos os moleques lá da Vila Nova. Minha adoração chegava ao ponto de eu pedir à minha mãe que substituísse o elástico de meu calção por um cordão comprido. E eu jogava com as duas pontas do cordão soltas, dependuradas, igualzinho ao do melhor zagueiro do mundo do adolescente e de quem eu tinha vergonha de me aproximar.


Lá no Caramuru me chamavam de Luisinho. E eu chutava bolas e adversários, cheio de orgulho.


Uma vez fomos jogar lá na Fazenda Cachoeira, e o treinador do nosso time, o Ciede de Freitas, levou o Wilson Olien Sanches para reforçar o Caramuru. O Wilsinho era bom de bola, já treinava junto com o Laércio, com o Japão, com o Arturzinho. O Wilsinho era educado, orientou-me todo o tempo, tratou-me como um igual.


Foi das maiores alegrias que experimentei na medíocre carreira esportiva.


A terra girou depressa demais.


O tempo se revelou juiz por demais severo. Flagrou em impedimento tantos craques, expulsou do estádio atletas como, Alvinho, Alfredinho Bittar, Rubens, Padreco, Brim Coringa...


Hoje olho a velha arquibancada do campo, reconheço que, ao longo da vida, participei de diferentes êxodos, vivi migrações várias. Em todas as laterais, em todas as áreas científica, artística, política cultivei ídolos. Quase sempre, o próprio sol esmaeceu o brilho dos eleitos à medida que me chegavam idade, experiência, capacidade de análise crítica.


Não diminuiu nunca foi o brilho dos ídolos que fascinaram uma criança recém-chegada da roça. Eles permanecem vivos, inteiros dentro da criança que hoje ainda transporto a custo.


Ah, como eu gostaria que eles ficassem imortalizados nestas palavras pobres como aquele campo do Internacional, como aquela descalça Rua Cavalheiro Petráglia.

 

Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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