O amigo do poeta


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Foi numa manhã que nasceu em meus olhos... maquiada de azuis e outros tons felizes. Mordisquei-a saboreando todas as nuances e matizes, como se tivesse acordado com fome e sede de sol. O cheiro do orvalho, aspirei a plenos pulmões. Engoli por completo o novo dia e fechei-o em minha alma como quem guarda um tesouro inestimável, como quem descobre que a vida não é uma mentira, ou melhor, que se trata de uma verdade com princípio e fim ...


Foi numa manhã assim que me revoltei contra a vida, porque ela não estava nos olhos de todas as pessoas. Eu sabia que naquele mesmo instante havia manhãs nubladas e sem sol ou secas e desprovidas de perfumes exalados pela relva úmida. Concomitante à minha percepção do belo, milhares de seres humanos poderiam estar observando auroras desprezíveis, insípidas e inodoras. Pior ainda, poderiam nem estar observando nada. Daí minha revolta. Há pessoas que enxergam muito e não vêem nada. No entanto, resta-me o conforto de saber que existem outras que não podem ver e têm a capacidade de enxergar. Estas sim, podem absolutamente até ouvir, com a alma.


Foi numa dessas manhãs, velho amigo, que através da leitura matinal do jornal, em um sábado que acordou frio, me fizeste marejar os olhos, de onde escorreram algumas lágrimas que aqueceram minha face e fizeram meu coração trotar ! Ser filho do poeta não me dá o direito de interpretá-lo e, ciente dos meus parcos recursos em declamar, posso afirmar que Josaphat ficaria muito melhor se declamado por você.


Não possuo o enredo que você tem na alma; quando muito, a minha contém uma pequena história. A sua, ao contrário, é digna de ser dirigida por Spilberg. É grandiosa,calorosa, flamejante, vulcânica, capaz intensos sentimentos !


Passei mais de duas semanas em dúvida, se pegava o telefone e agradecia seu gesto, ou se ia à sua casa fazê-lo pessoalmente. Nem uma coisa nem outra. Então, passado o torpor em que fiquei devido às suas gentis palavras, e devido ainda à minha natural timidez, quero informá-lo de que vou tentar seguir seu conselho. Meu pai com certeza, esteja onde estiver, ficará satisfeito. Às vezes é necessário um empurrãozinho p’ra gente andar, mas para declamar Josaphat, só mesmo levando uma trombada dessas, que virou minha alma do avesso !


Obrigado, Chiachiri, em nome do pai, do filho e da poesia !

 

Hélio França
Engenheiro e membro da Academia Francana de Letras

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