Falando de José...


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“Vivemos para dizer quem somos”
 José Saramago

A pequena aldeia, Azinhaga. A província, Ribatejo. O país, Portugal. O ano, 1922. O dia, 16 de janeiro. O menino que nasceu, José Saramago. De uma família pobre de camponeses, ele, muito cedo se viu obrigado a deixar os estudos secundários para estudar em uma escola industrial, onde se formou serralheiro mecânico, em 1939. No entanto, o sonho daquele menino era escrever. Freqüentava as bibliotecas públicas por não poder comprar seus próprios livros. “Não tive um livro meu até aos dezoito anos”, diz ele. Isso, no entanto, não foi empecilho para que, em 1998, fosse o único português a ganhar o Premio Nobel de Literatura. A primeira vez que um autor de língua portuguesa foi laureado pela Academia Sueca. Nunca freqüentou a universidade. A vida e sua inteligência o moldaram. Da pequena aldeia, onde nasceu, sua família mudou-se para Lisboa onde trabalhou como jornalista, desenhista, editor, tradutor. Seu primeiro livro, Terra do Pecado, foi publicado em 1947, quando tinha 25 anos. Depois ficou 19 anos sem publicar e só ganhou notoriedade aos 60 anos quando, em 1982, publicou Memorial do Convento que foi traduzido em diversas línguas. A partir daí, uma sequência de sucessos publicados, como A Jangada de Pedra, O Homem Duplicado, Viagem a Portugal, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Caim, todos traduzidos em diferentes idiomas e publicados em inúmeros países. Polêmico, por se declarar ateu em um país essencialmente católico como Portugal, Saramago sofreu perseguição religiosa, principalmente quando publicou O Evangelho Segundo Jesus Cristo, obra que foi considerada uma ofensa à Igreja Católica. “Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro”, responde Saramago. E complementa: “Eu gostaria que Deus existisse, pois teria a quem pedir contas toda manhã”. O livro foi vetado de uma lista de romances portugueses, candidatos a um prêmio literário europeu. O escritor se sentiu censurado e discriminado e, em reação a este ato, abandonou Portugal e passou a viver na ilha de Lanzarote, na Espanha. Desde muito jovem se sentiu atraído pelas vozes comunistas e militou sempre neste partido. Também por este motivo o Vaticano repudiou a honraria de um Premio Nobel a um “comunista inveterado”, aproveitando a oportunidade para, na verdade, se posicionar claramente contra o ateu militante. Pela vida pontuada por posturas consideradas radicais, muitos julgam José Saramago um homem prepotente e de difícil acesso. Ele é, porém, acima de tudo, como afirmam aqueles que com ele convivem, um humanista, um homem íntegro, um cidadão do mundo. Coerente e lúcido em seus mais de oitenta anos, sua presença alta, esguia e forte, se impõe de forma elegante e inteligente. Dizem que para quem o encara de frente, se depara com “olhos e voz de encantador de serpentes”. Com a certeza do que sabe o que diz, derrubando frios pressupostos sobre sua personalidade, ele observa: “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”. Saramago é conhecido por utilizar frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Para os diálogos de suas personagens, não há travessões. Sua escrita nos propicia uma forte sensação de fluxo de consciência. Muitas das suas frases, ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Apesar disso, o seu estilo não torna a leitura mais difícil, os seus leitores habituam-se facilmente ao seu ritmo próprio. Torna-se fascinante navegar pelas linhas de José Saramago. É preciso experimentar, verificar, sem prévios julgamentos. “Vivemos para dizer quem somos”, nos diz o escritor. E complementa: ‘Tudo o que fiz foi com plena consciência de um ser humano que busca relatar sua identidade. Preciso indagar que diabos estou fazendo aqui, na vida, na sociedade e na história.”

Nota da Editora - O presente artigo foi escrito dias antes da morte de José Saramago, ocorrida no último 18 de junho.
 
 
Jane Mahalem do Amaral
da Academia Francana de Letras

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