Equação difícil


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Duas notícias, uma atualmente na mídia e a outra nem tanto, me fazem pensar sobre o País (e o mundo) em que vivemos. A primeira é sobre o fato lamentável da repetição insistente da calamidade e da desgraça pública: a destruição causada por chuvas em Alagoas e Pernambuco. A segunda trata do relatório do DIESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) publicado dia 18 último, sobre a capacidade futura de consumo dos brasileiros.


As chuvas destruidoras em alguns estados nordestinos é a continuação de uma saga que já conhecemos. Seja em Santa Catarina, no Recife, depois no Rio de Janeiro e agora em Alagoas e Pernambuco. Vivemos pequenos e avassaladores tsunamis de tempo em tempo. O impressionante é que a cada período de chuva, independentemente da região, sabemos o que nos espera: muita destruição, morte e tristezas. Enquanto isso, no conforto de nossos lares, localizados em áreas ainda protegidas desse tipo de calamidade (os proprietários e frequentadores do Galo Branco certamente não pensam assim) apenas assistimos a essa desgraça pelos noticiários. Fica a impressão de que não estamos no mesmo país desses acontecimentos. Em um mesmo quadro catastrófico visualizamos a Tailândia do tsunami de 2004, os Estados Unidos do furacão Katrina de 2005, o terremoto do Haiti no começo de 2010, as enchentes em Angra dos Reis também no início do ano e agora, Alagoas. De quem é a culpa? Da natureza? Pobre natureza! Desde pequeno ouço dizer que a natureza é sábia e providencia tudo o que necessitamos. Então poderíamos dizer que as catástrofes são providências da natureza para que possamos aprender alguma coisa com elas. Será?


Bem, aí entra o relatório do DIEESE. Ele aponta que se a economia brasileira mantiver taxa média de crescimento de 4,5%, até 2014 o mercado de consumo poderá atingir R$ 2,6 trilhões e o varejo – excluindo veículos e combustíveis – movimentará cerca de R$ 830 bilhões por ano. Pergunto: qual o custo desse potencial de consumo para o meio ambiente? A resposta, confesso, é difícil. Quem entre nós não gostaria de adquirir alguns bens tão cobiçados (básicos para muitos) ou que a sociedade de consumo apenas nos induz a desejar? Acontece que a maior parte desses fenômenos, que tem devastado comunidades inteiras e causado muita dor e perplexidade é conseqüência das atitudes humanas de viver sem respeitar o limite que a natureza silenciosamente sempre nos impôs.


O histórico descaso com o planejamento urbano levou à destruição que vemos à cada mal tempo nas cidades. A histórica falta de política habitacional para os trabalhadores assalariados, garantindo proteção social, levou a construções irregulares e perigosas nas cidades. O consumo descontrolado leva, cada dia mais, à exploração desmedida dos recursos naturais (metais e minerais) e ao comprometimento do meio ambiente.


Portanto, está cada vez mais difícil equacionar a busca atual e prioritária da humanidade: aumentar seu poder de consumo, com o equilíbrio e bom senso que o planeta requer e, enquanto não aprendermos a fazer essa equação, nos restará apenas cultivar o que os povos, ricos e pobres, têm de sobra: solidariedade.

 

Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário

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