Jamais?


| Tempo de leitura: 5 min

Voltei a Aruba. Uma amiga, que habitualmente vai para lá e foi companheira de viagem de quando visitei a ilha pela primeira vez, comentou que eu afirmei que jamais voltaria.

Bem, jamais é uma palavra que eu evito pronunciar porque não consigo manter qualquer opinião ou parecer que complete tal advérbio, principalmente quando o verbo, que completa a idéia está no futuro... Jamais farei, jamais falarei, jamais voltarei... jamais afirmo! Depois de morder a língua - nem sei quantas vezes - aprendi que jamais é nome de sentido muito complicado para ser tomado em vão. Eu teria dito que não voltaria a Aruba porque lá há lagartos demais, demais para o meu medo. E tem mesmo. Mas tem desses bichos em Cheddar Gorge, nos frios caminhos ingleses; nas escadas de pedra da grega Santorini; nas ruínas de Pompéia, perto do Vesúvio; no jardim da minha casa; nos ranchos da Rifaina; na Canastra; nos Lençóis Maranhenses; até no cemitério de Franca! Não preciso gostar deles. Decidi aprender a fugir sem gritar tanto e hei de conseguir! Com esse propósito na cabeça voltei à ilha que, apropriadamente, é chamada de Ilha Feliz.


Apenas trinta quilômetros separam Venezuela e Aruba. Colombo teria descoberto a América em 1492 quando chegou ao Caribe aportando, segundo dizem uns, na República Dominicana, em Porto Rico, segundo outros. Apenas sete anos depois Aruba foi descoberta por navegadores espanhóis e depois vendida para os Países Baixos. Em 1984, quando se tornou independente, foi redescoberta pelos norte-americanos que ali construíram seus maravilhosos hotéis; espetaculares conglomerados de restaurantes, lojas e cassinos. Recentemente sofreu nova invasão de grifes e shoppings, inimagináveis há treze anos, quando fui lá pela primeira vez. O Mar do Caribe possui ilhas fantásticas, além de uma cor que outro mar nenhum possui: 'inenarrável', segundo uma poetisa francana. Tem areias brancas que fazem contraste espetacular com os tons e nuances do azul/verde de suas águas. Venta muito, tanto que o símbolo da ilha é uma árvore tombada pela ação do vento.


Tão logo cheguei, vi jornal anunciando um Festival de Cinema entre outras atrações arubanas da semana. Diretores, coreógrafos, roteiristas, produtores e até alguns astros do cinema internacional prestigiariam o evento. Dois nomes sobressaíam: Bertolucci e Richard Gere. Fiquei de prontidão. Na manhã seguinte, outra surpresa: o ator estava hospedado no nosso hotel. À tarde, intensa movimentação: haveria um evento sob os quiosques na praia. E ele chegou: calças jeans, camisa azul, sandálias, óculos escuros de aro de tartaruga, cabelos grisalhos balançando ao vento de Aruba. Distante dele dois ou três metros, tiramos um monte de fotos. Mas a surpresa ficou reservada à área do elevador de acesso aos andares dos nossos respectivos apartamentos. De repente estávamos ali, parados, esperando: dois 'armários' que o escoltavam, eu, meu marido com a câmara nas mãos e ele. Meu marido perguntou se ele se incomodaria de tirar uma foto comigo, ele respondeu não, passou os braços pelos meus ombros e eu pela cintura dele, ficamos esperando pelo flash... que não aconteceu. O elevador chegou, ele pediu desculpas, mas disse que tinha de ir, bateu a mão nas minhas costas, disse bye bye e entrou pela porta adentro. Eu fiquei catatônica e não tinha nada nas mãos para jogar no meu marido que ficou ali, afirmando que a câmara falhou. Ele já me pediu desculpas e insiste em conversar comigo, mas eu jurei que nunca mais falarei com ele.


Para pedir desculpas, vem dizendo que qualquer Photoshop me põe ao lado do Richard Gere, do Colin Firth, do Ralph Fiennes e de quem mais eu quiser: estou considerando a possibilidade com certa simpatia. Como não consigo guardar rancor por muito tempo vou acabar dialogando com ele: afinal por sua causa – embora sem registro oficial – é que fiquei abraçada com Richard Gere, na porta do elevador, durante tempo mais que suficiente para umas dez fotos...

 

PAPIAMENTO
É a língua falada em Aruba. Misto de holandês, espanhol e português, possui sonoridade incrível. Algumas vezes dá a impressão de estarmos entendendo alguma coisa do que eles falam pela familiaridade de sons nasalados que só brasileiros e portugueses conseguem, como o segundo "a" em maçã; o "e", como em bem, o "an" nos gerúndios.


PAIXÃO
Arubanos e arubanas são loucos pelo Brasil. E pelo futebol brasileiro. Uma lojista mostrou suas unhas enfeitadas com, no lugar da tradicional florzinha ou à francesinha, a bandeira brasileira. Há fotos dos jogadores na barracas de suvenires; discos de samba e pagode nas lojas especializadas e reproduzidas à exaustão nos programas de rádio.


PREFERÊNCIAS
Gosto de praia. Não gosto é do trinômio areia, calor e água salgada. Todo o resto é bom: a descontração, o barulho das ondas, o pôr-do-sol, a cerveja gelada, a lua batendo na superfície do mar. Nas praias estrangeiras já não é mais novidade, mas no Brasil estão se tornando frequentes os chuveiros com água doce para depois dos banhos de mar. Já são encontrados no Rio, em muitos hotéis na Bahia, no litoral norte do estado de São Paulo. Uma bênção!


FANTASIA
Recuso-me a fantasiar de brasileira em época de Copa do Mundo. Toda vez que uso verde e amarelo sirvo de piada, pois dizem que estou parecendo a bandeira brasileira. O comentário não é elogioso, é depreciativo. Uso vermelho e preto, boto sapatos dourado, não viro bandeira alemã. Uso calça jeans com uma camiseta vermelha, tênis branco, não sou bandeira americana, nem inglesa. Quem nunca usou azul claro e branco? Por acaso foi chamado de bandeira argentina? Chega a Copa, vira moda gostar dessas cores?

 

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários