Há alguns anos dois colegas professores da Faculdade de Direito resolveram, após as aulas do curso noturno de uma sexta-feira, tomar uma cerveja e bater um papo descontraído em um tradicional restaurante situado no centro de Franca. Após o bate papo, ao retornarem para as suas casas, depararam-se com um lobo Guará perambulando pelas ruas da cidade.
No dia seguinte, ao contar o episódio aos colegas foram alvos de brincadeiras e chacotas, por razões óbvias. Todos colocaram em dúvida o fato. Não seria um cachorro?, indagaram alguns. Será que não se excederam na cerveja?, perguntaram outros.
O fato é que, pouco tempo depois, o Corpo de Bombeiros de Franca foi acionado por populares. Havia, realmente, havia um lobo Guará nas ruas de Franca. O episódio acabou sendo notícia de jornal e a explicação para o fato até então inusitado foi a de que, infelizmente, o lobo deslocara-se para o centro urbano em busca de alimentos pois já não os encontrava em seu habitat natural; prova evidente de um nítido desequilíbrio ecológico.
Os colegas professores, obviamente, ficaram felizes com a comprovação inequívoca do que haviam afirmado. Um deles guarda até hoje o recorte do jornal com a notícia. O episódio serve para ilustrar, portanto, o caos ecológico que o nosso planeta vivenciava há 20 anos. Desmatamentos sem qualquer controle; uso irracional dos recursos hídricos; espécimes animais, sem alimentos, ameaçados de extinção; total ausência daquilo que se costuma chamar de consciência ecológica. O ser humano teimava em não entender a importância do planeta para a sobrevivência das gerações vindouras.
Felizmente, quanta coisa mudou nesses últimos 20 anos! Hoje é absolutamente inimaginável encontrar um adolescente empunhando um estilingue ou mesmo uma espingarda de pressão caçando indefesos passarinhos. Isso era rotina na minha infância e adolescência, infelizmente.
Cresceu, então, a consciência da preservação. As crianças são educadas e preparadas para preservar o meio ambiente. Tratados internacionais foram firmados. Leis foram sancionadas restringindo os desmatamentos e o uso desequilibrado dos recursos hídricos. Ong’s foram constituídas com objetivos preservacionistas.
Há, então, uma série de medidas foi adotada com ações concretas no âmbito público e privado. O resultado de tudo isso já pode ser comemorado. Espécimes de animais ameaçados de extinção, já não mais estão. Houve diminuição na concentração de carbono na atmosfera, embora alguns países resistam ao cumprimento das metas propostas em tratados internacionais.
A caça praticamente desapareceu. A pesca deixou o caráter predatório para ganhar um conceito de esportividade. Agora a novidade é o ‘pesque e solte’, somente retendo para consumo o peixe de tamanho ideal. As pessoas preferem conviver com os pássaros soltos na natureza, ao invés de prendê-los em acanhadas gaiolas.
O homem parece que aprendeu a contemplar o espetáculo da natureza, embora muita coisa ainda possa e deva ser feita. O bom é que a maioria tem hoje, consciência de que devemos preservar para entregar o planeta às novas gerações em pleno equilíbrio ecológico.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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