De modo muito paradoxal viver consiste, dentre outras coisas, em ter desejos. Corações inquietos pela busca incessante da felicidade são presas fáceis das políticas de ocupação de espaços desenvolvidas pelos institutos de psicologia social e amplamente utilizadas pelas mídias e pelo governo.
Havia antes, a preocupação em se formar pessoas honradas, responsáveis por seus atos e capazes de discernir entre o certo e o errado. O que se presencia nessas duas últimas gerações são sinais de degradação do caráter, da perda da liberdade imposta a todos os padrões de comportamento, até porque tudo o que ocorre no âmbito sociológico é previamente definido tanto pela indústria do entretenimento, como pela indústria de alimentos, cosmética, automobilística, de vestuário etc.
Não há nada que esteja fora de mercado, nem mesmo a cultura. A indústria cultural tem como meta inverter o eixo do entendimento e alterar o senso comum de acordo com os interesses de uma minoria que pretende dominar a mente humana através do cerceamento das liberdades individuais.
Que é o homem, afinal? Fruto de uma explosão cósmica que deu origem a um aglomerado de proteínas e ácidos? O mais espantoso e surpreendente é que toda uma civilização foi formatada intelectualmente para acreditar que a partir de uma desordem, de uma explosão inicial, se seguiu a ordem e a harmonia universais. Seria como explodir um carro velho e esperar que um último modelo se formasse a partir dos destroços.
Se o ser humano não passa de reações físico-químicas, não tem de se preocupar com nada. Tudo não passa de um acidente cósmico e ninguém tem obrigação de responder por seus atos. Essa é a orientação que crianças e jovens recebem tanto em casa como na escola.
Schopenhauer escreveu – não sem razão – que não existe nada tão ruim que não possa piorar. O ser humano é prisioneiro de contradições infinitas, sobrevive à custa de muito esforço e está sempre rodeado de incertezas, mas isso não basta. Tem de ser subjugado, ludibriado para manter um sistema arruinado, apodrecido pelo interesse e pela sede insaciável de poder de alguns.
Quando um indivíduo estufa o peito e faz discursos efusivos de defesa dos direitos humanos, dos interesses da nação e dos pobres, não se engane. Eles estão na defesa dos próprios interesses. Adoram dinheiro, afagos e poder. É só o que querem. Ninguém está preocupado com o País, muito menos com o povo. Se alguma coisa estiver sendo feita para o povo é para que essa massa possa legitimar o mandato dessa gente através do voto. Perpetuidade no poder, eis o projeto.
Qual a tentação que mais ameaça o brasileiro? Dizem os estudiosos que ‘pertence à essência da tentação o seu aspecto moral: ela não nos convida diretamente para o mal, isso seria grosseiro. Ela pretende mostrar o que é melhor para nós: por finalmente de lado as ilusões e dedicar-se de todas as formas à melhoria do mundo. Além disso, ela se apresenta com a pretensão do verdadeiro realismo: o real é o que aparece (poder e pão)’.
A história se repete tal como no mito de Sísifo e no tapete de Penélope. Caminhar em círculo é a certeza de sempre chegar ao mesmo lugar. É esforço vão.
Nadir Ap. Cabral Bernardino
Professora
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