Algumas vezes tenho feito referências a um antigo hábito de nossa comunidade: ausência em prestar reconhecimento a seus filhos ilustres ou responsáveis por feitos que teriam muito significado para nossa história.
Não falo de pequenas lembranças de eventos sociais, objetivo de marketing até exploratório de princípios vaidosos. Tampouco falo de pessoas cujo mérito, tímidos ou ausentes, careça por frequentar a pauta da evidência.
Falo de pessoas que a história registre atributos e realizações, marco individual indelével das ações e feitos nobres, culturais e amplos na física e proteção da natureza humana. Franca pode gozar a doce alegria materna de umas poucas figuras aureoladas com boas qualificações. Não deve, portanto, permitir que oportunidades possam esgarçar no tempo sem enaltecer a honra sentida com a realçada imagem de seus filhos.
Chamo neste espaço a atenção para os deveres da sociedade, das entidades representativas, da administração executiva e legislativa política. Destacarei um francano ilustre, inscrito em nosso painel de conterrâneos, merecedor insígne do laurel para o qual foi indicado.
Um modesto sapateiro, músico na sensibilidade, profissão e arte vinculadas a nossa tradição, seu Bem-Bem, unido por casamento à doceira D. Josina, em 1914 deram a Franca um novo habitante que viria registrar-se na história do País. Não tenho conhecimento de que nosso cadastro cultural, em algum momento, tenha registrado preito mais significativo em honra a seu filho Abdias Nascimento. Reconhecido no campo das artes, Abdias, pintor, dramaturgo, escritor e poeta, fundou no Brasil em 1944 o Teatro Experimental do Negro. Fundou também o jornal Quilombo, exerceu as funções de deputado, senador e secretário de governo no Estado do Rio de Janeiro. Em defesa de ideais fundou em 1981 o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros. Destacam-se entre seus livros publicados O genocídio do Negro Brasileiro e O Quilombismo.
Acrescentou Abdias à sua biografia uma indicação para receber o Prêmio Nobel.
O Parlamento norueguês, através de uma comissão, escolherá em 8 de outubro, entre 250 apontados pelo mundo afora, o felizardo a ostentar o Nobel da Paz do ano em curso.
Entendendo ser este o momento de um reconhecimento expressivo, apresso-me a concitar as forças locais a disparar os dispositivos de que dispõe para incitamento aos poderes da República na busca da escolha de Abdias Nascimento. Sua luta contra o racismo, sua dedicação às artes e sua participação na vida pública credenciam-no ao título.
Aos nossos deputados, ao Executivo, ao Legislativo, às entidades de classe, aos organismos da sociedade, à mídia, cabem a responsabilidade de instalação de um movimento visando os poderes do Planalto, Ministério das Relações Exteriores e outros em favor da justa conquista do conterrâneo Abdias Nascimento ao Prêmio Nobel.
Garcia Netto
Jornalista
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