Existem alguns casos em que o personagem destaca-se mais que o próprio fato. O caso Padre Dé é um exemplo típico de tal fenômeno. A cobertura jornalística feita pelo Comércio da Franca sobre as denúncias de crimes sexuais contra o religioso foi motivo de muita discussão. Muitos se chocaram, mas aprovaram a cobertura. Uma minoria foi contra. Mas, mesmo entre os que preferiam não ler esse tipo de notícia, não houve questionamento sobre a veracidade dos fatos. Pelo que parece, o que incomodou a muitos é o fato das denúncias pesarem sobre um padre. Os debates chegaram à reunião do Conselho de Leitores do GCN Comunicação, realizada no último dia 12. O encontro, um dos mais participativos desta formação do conselho, contou com as presenças dos conselheiros Ana Paula Baldoino, Anderson Marcelo Batista, Camila Beghelli Schirato, Carlos Eduardo Gimenes de Matos, Daniel David Machado, Fabrício Luís Pizzo, Henrique Eduardo Andrade Teixeira, Janice de Oliveira Silva, Luís Eduardo Marques Ferreira (Duda), Maria Regina Franz Di Maio, Plínio Cantieri Murta Vieira, Susana Batista Messias e Tatiane Cristina Venuto.
A posição deste editor novato no Comércio em meio a 13 dos 18 conselheiros - que até então conheciam o jornal mais profundamente do que ele - era de total isenção.
Ninguém assumiu - nem os favoráveis, nem os contrários à cobertura -, mas a discussão se deu em torno especificamente da figura do padre. O fato em si deu lugar ao personagem. O meu distanciamento dos fatos (uma vez que havia chegado a Franca há duas semanas, quando as principais denúncias já haviam sido publicadas) possibilitou-me analisar as opiniões de forma bastante equilibrada. Avaliando as colocações de cada parte, sem participar diretamente das discussões.
A cor vermelha foi o motivo que deflagrou o debate e gerou opiniões contrárias. Na primeira denúncia publicada, um quadro vermelho na metade superior da capa do Comércio, no dia 25 de março, trazia a manchete: Denúncia de pedofilia assombra diocese de Franca. “Poderia ter dado a manchete, mas não precisava ser com um fundo vermelho”, disse a conselheira Maria Regina. “Nunca vi o Comércio fazer isso, foi exagerado”, disse Camila. “Poderia ter sido uma notícia menor lá dentro do jornal. Não precisava ser na capa”, completou Maria Regina. “A primeira capa do jornal sobre o caso realmente me chocou. A princípio, pensei que fosse exagero. Mas depois, com o desdobrar dos fatos publicados, vi que o jornal agiu corretamente”, opinou Susana. “O jornal, com esta capa, foi muito corajoso”, afirmou Duda.
Sônia Machiavelli, presidente do Conselho de Administração do GCN; Corrêa Neves Júnior diretor-responsável; Joelma Ospedal, editora-chefe do Comércio; Everton Lima, diretor artístico da Difusora; e Luiz Neto, editor de Opinião, expuseram a difícil missão de reproduzir em notícia denúncias tão graves e delicadas quanto as que se referem ao caso do padre Dé. Lembraram que foram vários meninos que afirmaram ter sido molestados por um padre. “Eles procuraram ajuda. Gritaram. Nada foi feito”, disse Corrêa Neves Jr. Na cobertura do Comércio, há depoimentos de padres que disseram saber das denúncias, mas acharam que “fosse coisa de moleque”. “Foi preciso que o Comércio gritasse para que se parasse para ouvir o que poderia estar acontecendo. É uma função do jornalismo, dar voz a quem não tem”, disse Júnior. Joelma prosseguiu: “A polêmica em torno do caso tem vários aspectos sobre os quais cabe reflexão. Um deles é que foi importante constatar novamente que, em que pese esse tipo de noticiário ter desagradado alguns leitores, em momento nenhum se questionou a seriedade com que o levantamento foi feito e a veracidade da apuração dos fatos. O outro, e que requer uma profunda reflexão da comunidade, é que pude perceber, na verdade, que há pessoas que não querem, sequer, ouvir falar de fatos como este. Não querem saber que coisas assim podem existir. E se sentiram incomodadas com o noticiário”, disse.
O que se viu, a partir de então, foi uma verdadeira aula de jornalismo. Didaticamente, diretor-responsável e editora-chefe explicaram o passo a passo da busca pela notícia. Esmiuçaram a checagem dos fatos. E revelaram: o caso Padre Dé foi publicado após um intenso trabalho investigativo da equipe de repórteres e editores do jornal decorrente de uma denúncia. A repórter Nelise Luques, presente à reunião, relatou um dos episódios da cobertura que surpreendeu a muitos. “Entrevistei uma pessoa e meu colega Marco Fellipe, outra. Estávamos em locais diferentes, não tivemos contato. E depois, já na redação, quando fomos conversar, a história era a mesma, só mudava o denunciante, mas o denunciado era o mesmo - o padre Dé - e os detalhes da denúncia batiam. Isso se repetiu, depois, várias vezes, ao longo do nosso trabalho de investigação. Foi impressionante”, disse.
Permito-me dizer que cheguei a pensar como parte dos conselheiros que talvez tivesse havido exagero na cobertura do caso. É, sem dúvida, uma denúncia forte. Mas ao final da discussão, saí convencido - como todos os membros do Conselho também saíram - de que o Comércio cumpriu sua obrigação: a de não se calar ao ter conhecimento de uma denúncia. Graças ao “grito” do GCN, os meninos - que até o presente momento não foram acolhidos pela comunidade que ficou em choque com a notícia - foram, ao menos, ouvidos.
Veja o quadro abaixo:
O que é sensacionalismo?
“Não aceito sermos taxados de sensacionalistas”. Contundente, Sônia Machiavelli posicionou-se contra a classificação que três conselheiros deram à cobertura, principalmente à capa com o fundo vermelho na primeira publicação sobre o caso Padre Dé. “Sensacionalismo é transformar um caso pequeno em um fato extraordinário. É gritar pelo que não existe. E nesta cobertura, não foi isso que aconteceu. O caso pedia uma ampla divulgação. Precisava ser contundente, chamar a atenção. Foi isso o que aconteceu”, disse. Os conselheiros compreenderam a explanação da jornalista e reconheceram que o termo “sensacionalismo” foi usado erroneamente. Solicitaram, inclusive, que o Comércio explicasse aos leitores o real significado da palavra.
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