O coração do crepúsculo pulsa cores de espanto
Quando os olhos da tarde se fecham.
Púrpuras, ferrugens e sangue lavam
O azul da face do mundo,
E a alma do dia se esvai,
Entregue ao vácuo,
Ao abismo da não-luz.
A doçura do ar está em um fio de notas
Que perpassa violetas e bronzes e negros,
Atravessa nortes e suis e oestes,
Lava e lavra as próprias penas,
E deixa o aroma de seu canto
- Leve e puro e líquido -
Flutuando... flutuando...
No cume das encostas da Terra
E ao pé das janelas do céu.
Que perpassa violetas e bronzes e negros,
Atravessa nortes e suis e oestes,
Lava e lavra as próprias penas,
E deixa o aroma de seu canto
- Leve e puro e líquido -
Flutuando... flutuando...
No cume das encostas da Terra
E ao pé das janelas do céu.
Vem de muito longe
- Enquanto o sol caminha
Em busca de outros Lestes -
Este som fluido que se perde
Em asas de mais e mais espaços.
Vem nascido do campo e das praias,
Das folhas de outono perdidas no vento,
Dos lagos vestidos de sóis e de luas.
Vem de oceanos longínquos,
De liquens,
De mel orvalhado em noites sem luzes...
Vem das vozes, dos ecos
De campos e mares e lagos e liquens...
Do coração dos poetas.
E me encontra
- Olhos e ouvidos; carne e pele e ossos e vísceras...
Ar e argila -
E me penetra e me cabe.
E cala, inteiro,
No Universo Primeiro
Clarividência
Espelho
Das coisas todas do céu
Espaço sem tempo e sem noites
Que me habita.
- Olhos e ouvidos; carne e pele e ossos e vísceras...
Ar e argila -
E me penetra e me cabe.
E cala, inteiro,
No Universo Primeiro
Clarividência
Espelho
Das coisas todas do céu
Espaço sem tempo e sem noites
Que me habita.
E me embala.
Eny Miranda
Médica, poeta e cronista
Médica, poeta e cronista
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