Futebol e seus fatos


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Além de ser uma paixão mundial o futebol tem histórias particulares que nos causam sentimentos estranhos. Há duas semanas eu tive a oportunidade de encontrar um velho amigo que não via há mais de 28 anos. Gabriel estudou em Uberlândia assim como eu, no final dos anos 70. Na Copa do Mundo de 1982 torceu, ardorosamente, para a União Soviética. Lembro que assistimos aos jogos na sede do Dagemp (Diretório Acadêmico do curso de Engenharia da Universidade de Uberlândia) e, na época, éramos todos apaixonados militantes políticos, mais especificamente de tendências políticas do movimento estudantil. Gabriel militava na LIBELU (Liberdade e Luta) ligada ao jornal O Trabalho de orientação marxista. Na época, defendia sua opção pela URSS porque entendia que no Brasil os trabalhadores eram escravizados e, na antiga URSS, os trabalhadores eram o poder. Bem... nem tanto.


Mas, o que me faz comentar esse reencontro é que hoje o Gabriel é um próspero empresário da construção civil em uma cidade da Zona da Mata mineira e, acreditem, ‘agressivo’ torcedor do Dunga e da atual seleção brasileira. Nesse nosso encontro eu perguntei a ele (meio que provocando) se ainda mantinha o mesmo pensamento sobre o capitalismo brasileiro e ele, de forma enfática (mas não tão agressiva como há 28 anos) disse que a ‘livre iniciativa era importante para o desenvolvimento da criatividade’. Eu insisti, perguntando sobre a exploração do trabalho pelo capital, tema que ele tanto discursava no movimento estudantil. Finalizou dizendo uma pérola: ‘eu não tinha dinheiro suficiente para gastar naquela época e então, tinha que atacar alguém’. Despediu-se rindo.
Nem é preciso dizer que fiquei alguns segundos, que pareceram séculos, parado e pensando no que havia acontecido ao bravo, astuto e aguerrido Gabriel do movimento estudantil. Que tipo de influência havia sido responsável por – praticamente – ‘lavagem cerebral’, tornando-o tão condescendente com a ‘livre iniciativa’? Não que eu concordasse com a postura dele há 28 anos mas, também, não vejo razões para concordar, totalmente, com sua acrítica postura de hoje.


O mais interessante ocorreu depois do encontro. No último 9 de junho a TV Câmara (http://www.camara.gov.br/internet/tvcamara) levou ao ar um programa conduzido pelo Sócrates (capitão da seleção brasileira de 1982), mostrando aspectos do futebol não mostrados pela TV comercial. Mostra que não há somente ‘ganhos’ na organização e na comercialização (feita pelas emissoras de TV) dos eventos esportivos no mundo. Sócrates e o jornalista José Cruz mostram os bastidores do futebol e, também, de grande parte da estrutura esportiva do Brasil e suas complicadas ligações financeiras.


Depois de ter assistido ao programa fiquei com vontade de reencontrar meu amigo e saber qual seria a sua opinião sobre a ‘livre iniciativa’ no esporte nacional e mundial.


Interessante mesmo, foi ouvir Sócrates usar da mesma veemência com que discursava o meu amigo ao dizer: ‘A TV vende o sonho do consumo. Vende atitude, aparência, comportamento, moda. Mas, é incapaz de vender educação. E vender esporte sem educação é um crime’. Será que o Gabriel ainda pensa assim?

 

Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário

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