O Labirinto do Fauno


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Filme será apresentado no Cinema e Psicanálise deste sábado, às 15 horas, no Centro Médico de Franca
Filme será apresentado no Cinema e Psicanálise deste sábado, às 15 horas, no Centro Médico de Franca

O diretor e roteirista Guillermo Del Toro parece ter buscado na mitologia clássica tanto o “labirinto” quanto o “fauno”, os quais foram transportados para a Espanha de 1944, cinco anos após o término da sangrenta Guerra Civil.


Por seu caráter sonhante, o filme O Labirinto do Fauno pode à distância, sugerir equivocadamente um gênero infantil. Apesar de evocar a sensação de uma fábula se apresentando diante de nós, não é um filme para crianças, nem mesmo um filme de terror. Ele nos conta sobre os dois mundos que permeiam nossa existência, o real e o imaginário, e o trânsito possível entre eles.


A personagem central, Ofélia, é uma pré-adolescente que se muda com a mãe para a casa do padrasto, um cruel capitão fascista, fiel ao general Franco e intensamente decidido a dizimar os ativistas resistentes que se escondem na vizinhança. Nas redondezas, Ofélia guiada por um inseto, encontra um labirinto habitado pelo fauno, onde faz um mergulho no mundo imaginário. Sua tentativa parece ser a de salvar-se da violenta realidade que a cerca, como uma fuga à crueldade da vida.


É uma história sobre a luta pela vida e a sobrevivência, diante daquilo que se apresenta de forma ameaçadora, seja em um mundo externo ou ao que está no mais profundo de nosso espaço interno. Repleta de beleza, a trajetória de Ofélia faz-nos contatar com a importância da fantasia mental, que se dá como tentativa de reconstrução dos contextos psíquicos estilhaçados.


Parece ser, de certa forma, um trabalho autobiográfico de Guillermo Del Toro, na medida em que todo grande escritor ou cineasta habita também um não-lugar, em busca do sentimento de existência. Sabemos que as grandes obras podem fazer referência à resolução de problemas internos de seu autor, assim como também, como uma forma de lidar com dificuldades que sua época lhe impõe. Somente inventamos os mitos, as fábulas e as histórias para falarmos de nós mesmos, sendo possível um melhor entendimento e aceitação como seres imperfeitos que somos, feitos de fraturas e de incompletude.


O Labirinto do Fauno é um espetáculo visual que se assemelha a um antigo livro de fábulas, onde realidade e fantasia se complementam a partir de um banquete de personagens e cenas inesquecíveis. É primoroso o trabalho da direção artística, de fotografia e maquiagem, criando cenários surrealistas numa atmosfera de pura arte, rendendo-lhe três Oscar, dentre os seis para os quais o filme foi indicado.


Ao manter a ambiguidade da história, a inteligência do roteiro oferece espaço para que o espectador tire suas próprias conclusões sobre o que é real e o que não é. O filme coloca-nos sob regime de pluralidade, o que acaba por não agradar o espectador desejoso de um mundo unívoco e simplório demais. Ver o Labirinto faz-nos lembrar de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, por remeter-nos a um mundo onde as verdades não são definitivas e absolutas. Constituintes de um movimento dialético estão esperança e violência, paz e guerra, inocência e perversidade.


O longa retrata um período histórico de truculência, em que aspectos sombrios tentam encobrir a vida dos personagens, que buscam pelos vínculos, pela força interna de reconstrução baseada nos afetos. Em plena vivência de guerra, Freud escreveu um artigo em 1915, denominado Sobre a Transitoriedade, onde tece considerações sobre a propensão à decadência de tudo o que é belo e perfeito, e seu desejo subsequente de reconstrução. Em relação às perdas causadas pela guerra, diz: “quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade.

Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura que antes”. Assim também esperamos, pela capacidade de revitalização diante do que aniquila, submete e corrompe.
Em dias atuais, necessitamos de um universo onírico que nos conte sobre o interior do ser humano, sobre como lidamos com nossos medos, apreensões e arrogância. Universo este, que nos possibilite o encontro com áreas férteis onde a vida se sobreponha à morte.


*Ana Regina Morandini Caldeira é psicóloga pela USP e membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto (SBPRP).

SERVIÇOS
Evento: Cinema e Psicanálise
Filme: O Labirinto do Fauno
Quando: neste sábado, dia 19
Horário: 15 horas
Onde: sede campestre do Centro Médico de Franca
Inscrições: R$ 5
Informações: (16) 3723-2815 

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