Após dormir por quatro anos e sete meses fechada em uma cela, ao lado de estranhas, Fabiana da Silva Barbosa, 30, tenta se acostumar a passar as noites ao lado dos filhos e da mãe, num bairro da periferia de Franca. A jovem sofre para poder recomeçar. Retornou à cidade depois de ser condenada por tráfico internacional de drogas e ficar presa na África do Sul. Há dez dias está em Franca, mas somente na última sexta-feira teve coragem de acompanhar a mãe até o supermercado e levar a filha Jenifer, 8, à escola. Tem receio das retaliações pelo crime que cometeu.
Jenifer, a segunda de seus três filhos, tinha quatro anos quando Fabiana viajou como “mula”, transportando drogas no estômago. Na mesma noite em que completou 26 anos, em outubro de 2005, seguiu para São Paulo, onde ingeriu 80 cápsulas de cocaína. A droga estava embala com plástico e fita isolante, do tamanho de um absorvente íntimo. Todas foram ingeridas com água e depois expelidas, já no continente africano, com ajuda de laxante. Fabiana viajou para ficar cinco dias na África do Sul, só conseguiu retornar ao Brasil cinco anos depois. Para a mãe, falou que iria cantar com sua banda em Ituiutaba (MG). A francana foi flagrada com as drogas no Aeroporto de Joanesburgo e condenada a oito anos de prisão. Pagou pelo erro. Cumpriu metade da pena e, por bom comportamento, conseguiu a liberdade depois de ficar quatro anos e sete meses fechada.
Na cadeia em Joanesburgo, chegou a dormir ao lado de mais de 40 presas. Dividiu o espaço com assassinas. Uma delas teria matado o próprio filho, esquartejado e colocado os pedaços do corpo no micro-ondas.
Quando decidiu transportar as drogas, estava grávida de poucos meses. Teve a filha, Kimberlyn, hoje com 4 anos, na África. Segundo ela, a cesárea foi sem anestesia. Fabiana se separou da criança quando ela estava com quatro meses. Sem dinheiro para alimentar a criança, pediu ajuda a pastores de uma igreja na África e enviou a menina para ser criada pela avó materna, em Franca. Kimberlyn chama a avó de mãe, mas Fabiana está tentando mudar esse hábito. “Ela já me chama de mamãe, mas ainda confunde”.
Ficar sem a filha foi um dos momentos mais difíceis para Fabiana e reencontrá-la, um dos mais emocionantes. “Foi maravilhoso. Só tinha recebido fotos dela quando tinha um aninho e só aqui vi como ela se parece comigo quando era criança. É idêntica”. Os dois filhos mais velhos, Nicolas, 9, e Jenifer, 8, querem recuperar os anos separados da mãe. Fazem questão de estar com ela, dormir no mesmo colchão. Jenifer ficou feliz de ser levada até a escola pela mãe e a apresentou orgulhosa aos amigos. Fabiana se emocionou. “Sonhei muito tempo poder fazer isso”. A jovem estava em liberdade desde 19 de abril esperando ser deportada. Conseguiu ajuda financeira de amigos e retornou ao Brasil. Chegou a Franca no dia 4 de junho.
O título de traficante é muito forte na vida dela. Mesmo com todo drama que já enfrentou, isso a faz considerar o futuro a etapa mais difícil desde que cometeu o crime. Ela quer recomeçar. Escrever uma nova história. Para simbolizar o desejo de vida nova, raspou o cabelo. Está careca, como ficou nos anos de prisioneira, após vender o cabelo para poder comprar leite para a filha recém-nascida. “Na África, colocam muito mau-olhado na gente, principalmente no cabelo. Quis raspar meu cabelo para tirar isso e ele crescer em chão brasileiro”, disse Fabiana, que confunde português com inglês ao falar. Não fala “sim”, mas “yah” quando as respostas são afirmativas.
Comércio - Por que aceitou transportar drogas para a África do Sul?
Fabiana - Foi uma decisão bem difícil que tomei. Estava vivendo uma situação difícil e foi sem pensar. Na verdade não pensei que ia ficar na prisão. Pensei que iria, pegaria o dinheiro, os R$ 25 mil que me prometeram, e voltaria para casa. Só pensei no dinheiro. Eles (traficantes) pagaram a viagem até São Paulo e de lá para a África. O combinado era ficar cinco dias na África, entregar a droga em Joanesburgo e voltar para o Brasil.
Comércio - Onde você ingeriu as cápsulas?
Fabiana - Em São Paulo. Tomei numa casa para onde me levaram. É tudo planejado. Uma pessoa espera você chegar, leva ao cabeleireiro para se arrumar para a viagem e dão dinheiro. Na hora de tomar a droga, a pessoa fica sentada na sua frente vendo você tomar. Engoli 80 cápsulas de cocaína, com água. Comecei a tomar no dia 24 de outubro à noite e embarquei dia 25. No dia 26 expeli tudo.
Comércio - Como foi a prisão na África?
Fabiana - Quando cheguei na África do Sul, passei no aeroporto, na vistoria e tudo, mas duas jamaicanas estavam dentro do voo com drogas ingeridas também e, quando chegaram lá, começaram a passar mal por causa da droga. A ordem era que todos que estavam dentro do voo delas fossem até o hospital. Quando estava dentro do táxi, um policial bateu no vidro, pediu meu passaporte e, quando viu que era o voo do Brasil, pediu para descer e acompanhá-lo. Não podia negar para não desconfiarem. Falaram para irmos para o hospital. Lá, depois de fazerem um raio-x em mim, constataram que estava com a droga. Não foi só eu. Cinco pessoas foram flagradas. Fomos eu, as duas jamaicanas, uma pessoa do Paquistão e um angolano.
Comércio - Que dificuldades você enfrentava quando decidiu ser “mula”?
Fabiana - Conhecia um amigo que já tinha feito com sucesso. Ele levou drogas para a Europa. Estava muito apertada e via as portas todas se fechando. Resolvi pedir os contatos dos negociantes (traficantes) a ele. Na verdade, implorei. Ele não queria que eu fosse, porque conhecia minha família e eu tinha filhos. Falei que ele era egoísta, que tinha ido e tinha dado certo. Ele me apresentou para um cara daqui de Franca que nem o nome sei. Pensava até em me matar porque fazer prostituição não podia e estava muito desesperada. Conversei com o rapaz e depois de dois dias ele disse para arrumar meu passaporte.
Comércio - Você já sabia que estava grávida?
Fabiana - Tinha suspeita.
Comércio - Mesmo assim você foi e deixou seus filhos com 5 e 4 anos.
Fabiana - Foi por desespero. Estava com dívidas, devendo aluguel, minha mãe estava apertada, minha irmã numa situação ruim, minha filha doente. A última opção era me matar. Fazia shows, mas mais durante o Carnaval. Os barzinhos onde me apresentava pagavam com cachê. Era R$ 1 daqui, R$ 1 dali. A noite dava R$ 20, R$ 25. Para pagar aluguel, cuidar dos filhos é muito pouco. Com o dinheiro que ele me ofereceu ia pagar minhas dívidas e investir em alguma coisa para trabalhar.
Comércio - Como foi para eliminar a droga do seu corpo?
Fabiana - É um processo bem nojento. Eles dão um laxante e você vai ao banheiro que tem um tanque. Quando você dá descarga, a droga é jogada nele. Aí você tem que lavar, tirar as cápsulas e colocar na bolsa para entregar.
Comércio - E a gravidez, quando você confirmou?
Fabiana - Quando fui removida para a prisão, comecei a passar mal e não sabia explicar porque não falava inglês. Fiquei até os quatro meses passando mal, mas já sabia porque não menstruava. Um dia desmaiei e me levaram para um hospital fora da prisão. Foi quando confirmaram a gravidez. Desse lugar me levaram para viver numa área reservada da prisão para quem tem filho ou tem doenças. Ficava todo mundo neste lugar, em Joanesburgo. Fui para a cadeia de Pretória em 2007.
Comércio - Quem eram suas companheiras de cela?
Fabiana - Algumas mataram o marido. Uma matou o filho, cortou os pedaços e colocou no micro-ondas para comer. Teve outra que matou o filho com um taco de beisebol e outras desviaram dinheiro de banco. Tinha gente de Zimbábue, Moçambique... É chamada a máxima prisão, que é de gente com sentença longa e crime mais forte. Tinha gente com 15 anos que está lá e vai ficar muitos anos ainda. Eram só mulheres, mas um povo muito agressivo.
Comércio - Qual a sensação de estar livre novamente?
Fabiana - Só acreditei que estava livre quando cheguei em Franca. Quando você sai da prisão, fica num lugar parecido com uma fazenda, o local de deportação, em Lindela. Lá era pior que dentro da prisão. Neste centro de deportação ficam pessoas de rua junto. Achei que depois desses anos todos trancada, ia ficar livre, mas foi pior. Não podia ligar para o Brasil. Passei bastante apertada. Um amigo da África me ajudou a voltar. Ele é nigeriano, soube da minha história e foi me visitar quando tinha minha bebezinha (Kimberlyn). Ele e a mulher pagaram minha viagem, por isso cheguei antes.
Comércio - E como foi a separação da Kimberlyn?
Fabiana - Sofri bastante para ter minha filha lá dentro. Por ser prisioneira, era tratada como um cachorro. Fiz cesárea sem anestesia. Quando acordei pensei que estava morta e no inferno: vi um tanto de corpos nas macas ao meu lado, todos cobertos com lençóis. Depois foi difícil criar a minha filha. Cortei meu cabelo, que batia na cintura, e vendi para comprar leite (começa a chorar). Sempre vendia minha comida, o pedaço de porco e de galinha, para comprar leite. Por minha filha ser branca, ninguém gostava de encostar nela - a divisão de negros e brancos lá é muito grande.
Comércio - Forneciam alimentação para a bebê?
Fabiana - Teve uma época que não tinha leite e eles davam uma mamadeira durante o dia. À noite não abriam a cela e não tinha mamadeira para ela. Ela chorava muito. Não pensei duas vezes e cortei meu cabelo curtinho e vendi para outra presa. Com o dinheiro, comprei duas latas de leite e um cartão de telefone. Um pastor da igreja me ajudava doando leite. Minha filha ficou até quatro meses comigo. Ela ficou muito doente e a pastora pediu para deixar tirar a Kimberlyn de lá e trazer para o Brasil. Estava cansada de passar dificuldades e fiquei com medo de ver minha filha morrer nos meus braços. Lá você grita e ninguém ajuda. Mal sabia me explicar. Hoje falo inglês, escrevo, leio, mas antes tentava falar algo e nem queriam me ouvir. Falei com a Arlete (pastora) e ela trouxe a Kimberlyn para minha mãe cuidar. Estava tão acostumada com ela (começa a chorar), mas não queria que ela crescesse dentro da prisão. Foi a coisa mais difícil da minha vida. Foi a mesma coisa de alguém arrancar um pedaço de mim.
Comércio - Como eram as cadeias?
Fabiana - Nós dormíamos 35, 45 mulheres numa cela quando estava na cadeia em Joanesburgo. A cela é um pouco grande, tem um chuveiro, um banheiro aberto e é trancada à noite. Dormíamos em beliches. Quando a prisão ficava muito cheia tinha que dormir duas no mesmo colchão. O banho era com água fria. A gente tem que levantar durante a noite, ficar na fila para tomar banho porque a água era quente à noite. A comida é horrível. Eles dão uma papa de farinha que eles colocam na água fervente e mexem até ficar igual a uma polenta. Eles comem com a mão. A comida é ruim, não tem tempero. Eles fazem sopa todo dia e colocam cebola, a casca do repolho picada, sem gosto. Na segunda-feira eles dão dois ovos cozidos com a papa e a sopa.
Comércio - Como era a rotina na cadeia?
Fabiana - Em Joanesburgo não tinha muita coisa para fazer. Não pode trabalhar. Em Pretória trabalhava na recreação, mexendo com esporte e fazia cursos. Estudei inglês, tecnologia, marketing, comunicação, ciências naturais. Na seção em que ficava era melhor porque não era cela, só um quartinho que dividia com quatro pessoas. Tem escola dentro da própria prisão. Podia trabalhar. Trabalhava na oficina da capitã, fazendo café, limpando a sala, buscando papéis dela. Cheguei em Pretória e me colocaram para limpar as escadas, mas expliquei que sabia trabalhar no salão de cabeleireiro que tem dentro da prisão e me colocaram no salão. Estudava e depois trabalhava no salão cortando cabelo das policiais e prisioneiras. Eles pagavam por mês. Tive sorte em Pretória. Ensinei esportes para eles. Ensinei vôlei, futebol e basquete. Montamos um time e fizemos campeonatos.
Comércio - Você recebeu um dinheiro enquanto trabalhou na prisão?
Fabiana - Sim. Deixei com uma amiga de lá, uma ex-prisioneira. Penso que consegui o equivalente a R$ 3 mil.
Comércio - Na África, também enfrentou câncer?
Fabiana - Tenho ainda um tumor no seio direito. Foi em 2009 que descobri. Eles queriam me operar no hospital, mas optei por esperar a volta para Franca porque tinha muito medo de morrer. Quando ganhei a Kimberlyn, sofri demais, então qualquer cirurgia lá me deixou com medo.
Comércio - Qual o momento mais difícil que enfrentou?
Fabiana - Penso que será agora, o de recomeçar. Nasci de novo e estou tendo que aprender a andar. Ainda estou com medo de sair na rua, ir aos lugares, encontrar os conhecidos, porque desapontei muita gente. Algumas pessoas me veem como uma criminosa. Reintegrar é a parte mais difícil.
Comércio - E você não se considera uma criminosa?
Fabiana - Não. Fiz uma coisa errada e sabia quando estava fazendo. Não me considero uma criminosa porque nunca vivi do crime. Só queria um empurrãozinho para começar. Se me achasse uma criminosa, ia ter coragem de ter um revólver ou de usar meu corpo para sobreviver e nunca fiz isso. Foi uma fase e me arrependo do que fiz. Aprendi muito e minha fé em Deus aumentou muito. Não conhecia Deus como conheço hoje, não acreditava Nele como acredito hoje. Se acreditasse, talvez não teria feito o que fiz. Aprendi muita coisa, talvez foi de uma dificuldade que conheci Deus e agora vou levantar.
Comércio - O você quer para seu futuro?
Fabiana - A primeira coisa que quero é arrumar um serviço. Agora falo, leio e escrevo em inglês. Penso em trabalhar em hotel, com comunicação, num restaurante. A única coisa que quero é conseguir um emprego e cuidar dos meus filhos, num lugarzinho nosso. Quero ensinar eles a falar inglês e acompanhar a vidinha deles, sem sair de perto deles nunca mais.
Comércio - Como estão sendo os dias em Franca?
Fabiana - Quando cheguei a Franca não acreditava que estava aqui. Chorei muito. Sou chorona. A melhor coisa foi dormir num colchão de verdade, além de dar banho nos meus filhos, cortar a unha deles, limpar o nariz, colocar comidinha na boca da Kimberlyn, coisas simples. Estar ao lado da minha mãezinha também é muito bom. Ela é minha rainha. Eu chorava todo santo dia, mas no fim de semana era pior porque via as outras prisioneiras com as mães durante a visita. Quando ligava para minha mãe, tentava ser forte, mas quando colocava o telefone no gancho, chorava muito. As presas perguntavam se alguém tinha morrido, elas falavam “essa branca é chorona”.
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