Em nosso País de dimensões continentais e vasta diversidade cultural são raros os momentos em que podemos vivenciar a sensação de integração nacional em prol de um único objetivo, como quando ocorre em jogos da seleção brasileira pela disputa da Copa do Mundo de Futebol.
É impressionante a forma ordeira e pacífica de mobilização dos cidadãos em torno do objetivo único de torcer pelo nosso time. Em síntese, há uma complexa estrutura que se coloca em funcionamento nos dias de jogos do Brasil. São grupos enfeitando ruas, pintando muros, organizando festas com fogos, bebidas e comidas e principalmente, sentindo orgulho de se vestir com as cores do Brasil ao mesmo tempo em que carregam nossa bandeira.
O que destaca é esse movimento espontâneo, descentralizado, o engajamento e a militância em busca de mais um campeonato mundial de futebol em atitude natural, quase que instintiva. A espontaneidade é a característica que mais nos impressiona nestes dias. Aliás, são fatos que reiteram a máxima de que ‘o futebol é mais do que uma religião, é o ópio do povo’.
Quanto aos jogadores da seleção nacional, representam apenas uma pequena parte de brasileiros que, podemos dizer ‘deram certo na vida’, conseguiram fama e dinheiro, oriundos em sua maioria, de famílias pobres que iniciaram carreiras futebolísticas diante da difícil opção entre deixar de trabalhar para ajudar nas despesas familiares ou se aplicar nos treinamentos dos clubes.
Futebol e política sempre andaram juntos na história brasileira, desde o século passado. Na Copa de 70, o presidente Médici queria Dario na seleção. João Saldanha então treinador, respondeu que ele escalava a seleção e o presidente deveria cuidar de seus ministros. Saldanha não foi para a Copa e o Brasil foi tricampeão mundial.
O ufanismo do verde-amarelo nunca esteve tão próximo das palavras de Nelson Rodrigues, o exacerbado patriotismo em nome do futebol: ‘a pátria em chuteiras!’. Infelizmente, por detrás do clima de comemorações não podemos nos esquecer que, perante a comunidade internacional, não somos somente campeões no futebol, mas também somos os campeões em corrupção, em suborno, em ‘mascarar’ crimes de lesa-pátria, em desigualdade social, em má prestação de serviços públicos etc; “a vida como ela é’, em nosso País.
Estamos assistindo a mais uma Copa do Mundo numa linha evolutiva do tempo, onde as transformações dentro do campo, através de marcação forte, sem espaços, com o aumento das estaturas dos atletas, combinado com a explosão de suas arrancadas e impulsões, privilegiadas por maior resistência aeróbica etc. se devem a aperfeiçoamentos da preparação física planejada aliada à medicina esportiva.
Em que pese toda essa evolução, o que dá o favoritismo ao nosso País é o diferencial de nossos atletas. Formados em sua maioria através da liberdade de descalços, com os pés no chão, brincando de futebol, por prazer, nas ruas e em campinhos de terra nas periferias das cidades, se desenvolvendo, aprendendo juntos uns com os outros.
O Brasil é o País do futebol e também do carnaval, sim senhor. Estamos a anos-luz de sermos o país da ciência, da filosofia ou mesmo da literatura. Tampouco vislumbramos uma nesga que seja de consciência política que possa ser traduzida em ganhos para a nossa gente, tão carente das garantias mínimas da cidadania. Gostamos mesmo é de festa, ritmo e alegria, seja na avenida ou no campo de futebol. Mas será que isso nos basta?
Enfim, gostaríamos que tal movimento espontâneo de cidadania e orgulho à pátria pudesse ter como objetivo a busca de alternativas para problemas nacionais para os quais estamos cansados de ouvir promessas e aguardar eternamente por soluções.
SANTO ANTÔNIO CASAMENTEIRO
As tradições fazem parte de nossas vidas e não devemos esquecer suas origens. Recordamos de nossa infância na Vila Peixe, onde certa vez, o hoje comerciante de malas Antônio Ivo e eu, para comemorarmos o dia de Santo Antônio, fizemos uma fogueira no asfalto que acabou abrindo um enorme buraco no meio da rua, ficando ali por vários anos. Fernando de Bulhões, monge franciscano conhecido como Santo Antônio de Pádua ou de Lisboa tem sido, ao longo dos séculos venerado como padroeiro dos pobres (pão de Santo Antônio), casamenteiro e também invocado para o encontro de objetos perdidos. Existem várias versões para o atributo de Santo Casamenteiro, sendo a principal a de que certa donzela não dispunha de dote para casar-se e, recorreu a Santo Antônio. E certa feita, caiu das mãos da imagem do Santo um papel com um recado a um prestamista (pessoa que empresta dinheiro a juros) da cidade, pedindo-lhe que entregasse a moça às moedas de prata correspondente ao peso do papel. O prestamista obedeceu achando que o peso daquele papel era insignificante e pôs o papel num dos pratos da balança, colocando no outro as moedas. Para surpresa os pratos só se equilibraram quando havia moedas suficientes para pagar o dote. Histórias à parte, Santo Antônio foi professor de teologia lecionando nas universidades de Bolonha, Toulouse, Montpellier, Puy-em-Valey e Pádua, adquirindo grande renome como orador, encontrando forte apoio popular em seus discursos. Mesmo com a saúde precária liderou grupo que se insurgiu contra os abrandamentos introduzidos nas regras pelos superiores dentro da Ordem Franciscana. Escreveu uma série de sermões e a profundidade de seus textos doutrinários fez com que em 1946 o Papa Pio XII o declarasse doutor da igreja.
É interessante destacar que no Brasil a data do dia dos namorados (12/06) criada pelo comércio paulista, não por coincidência, é comemorada na véspera do dia do casamenteiro Santo Antônio, mas sim por interesses comerciais, pois as duas datas incentivam a troca de presentes entre os ‘apaixonados’.
Toninho Menezes
Advogado, administrador de empresas, professor universitário -
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