Experimentei minhas lembranças e senti um comichão na mão direita. Olhei detidamente para onde formigou. A memória explodiu: a Copa de 70!
Não me lembro de nada de 1958 e nem de 1962, o Brasil campeão e bicampeão na Suécia e no Chile. O rádio transmitia e a gente só imaginava. Meu futebol era no quintal de meus avós, com velhas bolas de cobertão. Em 1970 foi diferente. Preparei-me. Curtia futebol. Jogava na várzea. Segui cada passo de João Saldanha o técnico/jornalista que formulou a equipe que nas eliminatórias conquistaria o direito de ir ao México tentar o tricampeonato.
O presidente do País era Garrastazú Médici. Sob seu comando vivíamos, infelizmente, os chamados “anos de chumbo”. A campanha nacionalista daqueles anos era ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’ inspirada na frase norte-americana ‘Love it or leave it’. Na época da Copa do Mundo tornaram-se conhecidos os compositores e cantores Dom e Ravel, criadores de músicas ufanistas como Eu te amo meu Brasil (ouça em http://www.youtube.com/watch? v=gW9fTy22dFY); Só o amor constroi (de Dom e Domingos Leoni, http://www.youtube.com/watch?v=ezTUUTKTqw8) e Você também é responsável (http://letras.terra.com.br/dom-ravel/979920/, que Médici transformou no Hino do Mobral) largamente utilizadas pelos militares para embalar populações e desviar atenções da repressão que causou milhares de mortes por tortura e desaparecimento de esquerdistas. Dom e Ravel juraram que não tiveram composições encomendadas.
Médici, general gaúcho e torcedor do Grêmio de Porto Alegre, aparecia sistematicamente em campos de futebol. Via, na possibilidade da conquista do tricampeonato a ferramenta perfeita para fortalecer sua imagem de governante comprometido com o povo e com os principais gostos populares. Este tempo também se tornou o tempo do “milagre brasileiro”. O tricampeonato, não tivesse sido conquistado configuraria tremendo passo atrás para o poder vigente.
João Saldanha era um homem sem meias palavras. Dizia o que pensava. Conseguiu integrar no mesmo time jogadores de personalidade forte como Pelé, Rivelino, Gerson, Tostão, Jairzinho, Paulo César Caju, Wilson Piazza, Carlos Alberto Torres. Duas curiosidades: por muito pouco Pelé e Tostão não foram cortados do time. Muitos diziam que Pelé era míope e Tostão (que havia sofrido um descolamento de retina), estava se tornando cego. Portanto, não podiam jogar juntos, defender o País, jogar a Copa. Saldanha ria. Dizia que Pelé e Tostão, ainda que cegos e uma perna só cada um, não teriam concorrência em qualquer tempo deste mundo. E outra: corria que a saída dele do comando da seleção tinha sido determinada pelo governo federal. A substituição por Mário Jorge Lobo Zagallo nunca ficou suficientemente esclarecida.
A verdade só apareceria para valer em 2006 quando o jornalista Geneton Moraes Neto o entrevistou e ele, com seu jeito plano e duro de falar, colocou os pingos no ‘is”: “O usurpador do poder naquele momento era o senhor Médici, que desejava popularidade e quis fazer popularidade através da seleção. Não era um bom caminho. Eu não estava de acordo. Nós éramos apenas um time de futebol. Mais nada! (...) Ele queria a convocação de Dario, do Atlético Mineiro, que era bom jogador mas não tinha lugar naquele time. Não aceitei. Saí”. (vale a pena ler a entrevista inteira em http://www.geneton.com.br/archives/000171.html).
E havia, em 1970, a televisão! Não em todos os lugares e de todo jeito como hoje mas, onde tinha um aparelho, acotovelavam-se amigos e inimigos, no milagre de companheirismo que uma Copa do Mundo proporciona. Eu vi o jogo contra a Inglaterra em casa de amigos. Jogo duro. Os ingleses batiam sem dó. O empate persistia. Num certo momento Carlos Alberto Torres, o capitão do time, não poupou o jogador inglês que mais “canelava” os jogadores brasileiros. Foi, com o perdão da palavra, uma “porrada” de jogar o cara para cima, ainda mais doída porque, à força do “capitão”, somou-se a de nós todos, “os 90 milhões em ação”, para ensinar aquele gringo que nem com pancada a gente ia perder aquele jogo.
Não perdemos. Jairzinho fez o gol solidário daquele jogo. No momento do gol saltei do sofá onde estava sentado e, soco no ar, encontrei com o braço e a testa o belo candelabro de vidro que ornava a sala. Foi caco para todo lado. Não vi o fim do jogo. Fui embora machucado mas feliz sentindo-me o próprio autor do gol.
Viriam os outros jogos. Quase em tempo real víamos os principais momentos nos documentários “Canal 100” antes das sessões de cinema (a gente daquele tempo ia muito ao cinema). A Jules Rimet, com o tri, veio definitivamente para o Brasil. Aqui, e quase todo mundo sabe, foi “prestigiada” com o nosso jeito todo especial de ser: roubada, foi fundida. Na CBF de hoje, há só uma cópia. Ter ouvido de novo o “Prá frente Brasil” (http://www.youtube.com/watch?v=FY-J—Jv4sFc), hino da seleção daquele ano, foi como pressionar o botão da memória. Até o dedo que machuquei aquele dia doeu de novo.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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