Beber, jogar...


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Domingão à tarde, tédio e frio. Leio nos jornais que o presidente Lula sancionou a lei da transparência que obriga as prefeituras a dar publicidade aos seus gastos on-line. Querendo testar o wireless que permite acesso à internet por toda a casa, arrisco ver o que anda fazendo o prefeito com o nosso dinheiro.


Lá estão as informações no site da prefeitura, para minha surpresa. As receitas e despesas estão lançadas. Arrisco olhar uma única ficha, a esmo. Dia 04 de março de 2010, parece, ainda é aquela contabilidade feita para especialistas, difícil encontrar alguma coisa específica. Isso prejudica a transparência, pois a esmagadora maioria da população, como eu, desconhece as filigranas da contabilidade pública. Aliás, como prefere o prefeito, é o estilo dele. A despesa foi feita pela Secretaria de Educação e me interessou, pois eram livros adquiridos para nossas crianças, inserida na rubrica de educação básica. Afinal, se a educação dos governos tucanos é das piores do país, livros podem ajudar a melhorar.


Evidente, adoro ler, mais até que escrever. A boa surpresa foi encontrar na lista A Hora da Estrela, de Clarice Lispector e A Revolução dos Bichos, de Orwell, excelentes livros. Mas para estudantes da educação básica? Estranhei, mas segui adiante.


A partir daí, a maionese desandou, a lista vai apresentando pérolas uma atrás da outra. Antes que me chamem de preconceituoso e atirem pedras, explico que só estou citando o que está lá, no site da Prefeitura. Livros como Beber Jogar F@#er, de Andrew Gottlieb, um bestseller engraçadinho, Como virar um vendedor Pit Bull, Como passar em provas e concursos, Quem pensa enriquece, Guiness Records, Confidencial segredos de moda.

Certamente, não são livros apropriados para a educação básica. Provavelmente, para coisa nenhuma. Sei que listas públicas devem atender a todos, mas a maioria é lixo puro, só serve para reciclagem. Deve ter ocorrido algum lapso da Secretaria, dita da Educação. Afinal, quem escolhe e decide comprar estes livros com nosso dinheiro tem que se submeter apenas à lista dos mais vendidos ou do que lhe pedem, sem discutir a qualidade? Na educação não é preciso pensar mais alto, em transformações mais profundas?


Lembro que, não poucas vezes, o Luiz Cruz tentou introduzir na rede pública de ensino a leitura de autores francanos e nunca conseguiu, por vários motivos. Será que, como fez Maurício Sandoval nos anos 80, Sidnei compraria livros de autores francanos? Inclusive dos que não rezam por sua cartilha?


Ah, tem também o livro Vigiar e Punir, esse eu tenho certeza quem foi que escolheu. É barbada, ganha um doce quem adivinhar. Posso apenas dizer que é aconselhável a todo cidadão, a partir de agora, acompanhar as contas da Prefeitura e da Câmara de sua cidade e ver como gastam o dinheiro dos seus impostos. Se não servir para muito, pelo menos é diversão garantida, pena que sem direito ao dinheiro de volta.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor               

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