Apenas uma lembrança... mas como dói!


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Dedicado ao Dr. Cleomar Borges de Oliveira

 

Havia pouco mais de um ano que me formara professor. Tivera aulas com mestres de formação conservadora, talvez a última de nossos tempos. À sua entrada, púnhamos-nos imediatamente de pé e em silêncio. Só sentávamos sob sua ordem. Nós, os alunos, nos mantínhamos quietos, arrumados e atentos durante toda a aula; trazíamos nossas lições de casa prontas; afinal, uma chamada de atenção em classe, à frente dos colegas, era algo terrível de suportar. E esta situação continuou na faculdade, embora um pouco mais aliviada.


Em que pese a rigidez de nossos mestres, não podíamos deixar de admirar, pela postura, didática, conhecimentos e exemplos de conduta professores como Alfredo Palermo, Antonieta Barine, Pedro Nunes Rocha, João Alves Pereira Penha, Assuero Quadri Prestes, Páschoa Baldassari...


De forma que, recém-formado, entrava nas salas de escolas públicas e particulares para o início de minha atividade docente, levando para aí um modelo de postura como professor. Havia uma história de formação que me acompanhava desde o período ginasial, hoje parte do ensino básico.


Foi quando a coisa se deu!


Classificado para aulas de Português numa escola estadual no bairro da Santa Cruz, em Franca, período noturno, tive pela frente e pela primeira vez alunos da periferia. E experimentava a experiência de classes distintas de alunos: pela manhã, alunos de escola particular, crianças bem nutridas, rosadas, alegres, dispostas, interessadas... À noite, as minhas crianças pobres, famintas, tristonhas, quantas delas, meu Deus, vivendo em lares desfeitos!


Novato, pensava que poderia adotar a mesma atitude de professor, tanto pela manhã quanto à noite. Lembro-me que nesta escola da Santa Cruz (Ângelo Scarabucci), eu chegava à porta da classe, parava sobre a soleira da porta esperando que todos os alunos se pusessem de pé, em silêncio, buscando repetir e preservar o que aprendera quando o estudante era eu.


Numa determinada noite, fria e de lua cheia, numa determinada classe, na quarta e última aula do período, lá estava eu esperando que os alunos se levantassem à minha chegada. Todos se levantaram (acho hoje que eles nem sabiam o porquê tiveram de fazer aquilo), menos um, que insistia em permanecer sentado, no último banco da última fileira.


Chamei-lhe prontamente a atenção. Houve um misto de espanto na classe, mas um espanto silencioso. Talvez me respeitassem ou me temessem. O aluno permaneceu sentado, desafiadoramente sentado, olhou-me fundo nos olhos, abaixou a cabeça, cruzou as pequeninas mãos sobre a carteira... Mas permaneceu sentado.


Não sabia se era fibra ou se me desafiava.


Desprezei-o por alguns segundos, pedi a todos que se sentassem, e iniciei um patético sermão sobre o respeito devido aos professores.


Falei, falei, falei... Gesticulei, dei exemplos, mal sabendo que poucos ou quase nenhum aluno estaria entendendo minhas palavras. E enquanto falava, olhava para o aluno indisciplinado, que já demonstrava algum princípio de nervosismo, torcendo as pequeninas mãos, olhar de culpa...


Parei o sermão. Aquele olhar de culpa já me bastava. Dei início à aula. Arrastamo-nos até o final. O sinal marcou o fim do período. Permiti aos alunos se retirarem em silêncio. Permaneci na sala, em minha mesa. Para meu espanto, o aluno indisciplinado também permaneceu sentado na sua carteira escolar. Talvez estivesse esperando o momento certo para se desculpar.


Súbito, surgiu um rapaz forte na porta da sala, pediu-me licença para pegar seu irmão.


O rapaz caminhou até a última carteira da quinta fileira, pegou seu irmão no colo e o levou delicada e amorosamente à cadeira de rodas que ficara no corredor.


A criança era paralítica!


No colo do irmão mais velho e mais forte, essa criança olhou-me e em silêncio pediu-me desculpas pela sua incapacidade de se levantar diante de minha augusta autoridade.


Não sei quanto tempo fiquei parado ali, na sala, na escola, no mundo, fulminado pela cena. Sei apenas o quanto me dói esta lembrança!


Imagino apenas o que a Providência arquiteta para quebrar a coluna imoral de nosso orgulho e vaidade.


Perdoa-me, meu querido e inesquecível aluno, onde estiveres hoje e agora!

 

Everton de Paula
Acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 42 anos

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