Ajudantes de ninho quente


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Difícil reconhecer, apesar de compreensível: somos descendentes de uma cultura que admitiu escravidão, daí o tratamento de inferioridade que vimos os ascendentes dedicarem aos funcionários domésticos.

 

Durante décadas, por exemplo, eles trabalhavam sábados e até domingos, como se descanso fosse privilégio apenas das senhoras de olheiras e gestos cansados que entendiam lazer como coisa só de patrões. Felizmente o bom senso - pelo menos nesse aspecto - prevaleceu e hoje eles recebem salário e, entre outros benefícios, décimo-terceiro, férias, direitos trabalhistas justos e dignos pois justa e dignamente trabalham. E fazem por merecer.


Embora a modernidade tenha chegado no que diz respeito à justa recompensa financeira pelo trabalho há, ainda, muito a fazer para diminuir a distância social, cultural e emocional entre funcionários e patrões. Não sei como é na intimidade da maioria das casas, mas volta e meia flagro-me envergonhada por fazer meu prato e comer antes que a própria cozinheira que preparou a refeição, o faça. Eu, lá na sala grande, sentada à mesa posta com toalha engomada, pratos simetricamente colocados, talheres impecáveis, copos transparentes e elas se alimentando depois de mim, isoladas, sentadas na cozinha. Acho esquisito que dirijam-me um tratamento formal e distante, a começar pelo protocolar senhora e dona, como se eu fosse a Sinhazinha Junqueira... Dizem que isso é coisa da minha cabeça estrangolada, mas como sou eu pessoalmente quem a bota no travesseiro, optei por minimizar o que chamo de injustiça: exijo para elas a mesa de refeição posta senão com frescura, pelo menos com esmero. E elas, para horror de algumas frequentadoras de casa me chamam pelo nome mesmo. Justifico: sabem mais de mim que às vezes eu mesma: quando estou de bom humor, quando estou com as ventas abertas, se quero privacidade, quando preciso de companhia, lembram-me de compromissos, sabem quando estou bem de saúde, me vêem de camisola andando pelos corredores, sabem quando fechar a porta devagarinho e até se estou de bem ou de mal com meu marido. A maior parte dessas reações e situações nem os outros familares percebem...
Como nem tudo são flores, há desentendimentos. Elas se aborrecem e não me surpreendem levando-me café no escritório. Minha roupa ganha menos amaciante, o costumeiramente tenro frango vira chiclete. Eu também entro e saio de casa com cara fechada, diminuo o volume do rádio quando passo perto dele - mesmo que a música me agrade. Logo, porém, tudo se normaliza e percebo que o período de dissensão entre nós foi mais curto que o daquele com o marido... E a mútua paparicação reinicia.


Já trabalhou gente em casa que roubou, saiu batendo a porta, que foi dispensada por justa causa, que me pediu dinheiro emprestado e sumiu. Mas poucas. A maioria deixou saudades. Tivemos T, mãe de leite do caçula. M, que sempre viajou com a família e ralhava com todo mundo - inclusive com os patrões. R, que nunca aprendeu fração e ao fazer bolo, colocava na batedeira 21 xícaras de farinha de trigo, achando que o 'risquinho e o dois que fica embaixo dele', não tivessem muita importância: era assim que ela interpretava a informação das 2 « xícaras de chá que, mesmo substituídas pelas de café, também não dava muito certo. Agora temos A, o jardineiro, que me assessora no jardim, M, que eu chamo para resolver todos os assuntos - onde está isso, onde está aquilo, cadê meus óculos, que dia é hoje; a J, que chega em casa cedinho e, quando acordo, informa o tempo: 'Olha lá fora a maravilha de dia que está acontecendo! Olha o Sol brilhando no verde da árvore! Olha o azul desse céu!'. Às vezes está tudo lindo mesmo, que essas manhãs de outono são maravilhosas, mas em outras obedeço e só vejo nuvens, ameaça de chuva, até um chuvisco. Digo ué, mas de onde você tirou isso? E ela, tal qual pitonisa, responde: 'Espera, espera pra ver!'. Meia hora depois, o mundo está brilhando outra vez. No imenso da casa, aumentado pelo vazio causado quando os passarinhos bateram asas, são eles que me ajudam a manter o ninho quente, para quando a Primavera voltar...

 

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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