Incredulidade sonsa


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É mais cômodo fingir não ver. Um elefante é colocado na frente da pessoa e ela se recusa a acreditar que aquilo é mesmo um elefante. O colapso está instalado, todavia é mais confortável ignorar.


A ousadia do crime é tão surpreendente que nem mesmo os grandes shoppings instalados em áreas nobres de capitais como São Paulo estão imunes aos ataques de criminosos, cujas ações são meticulosamente estudadas.
Faz pensar que existe uma escola superior do crime, onde criminosos são treinados para agir com tamanha engenhosidade que mesmo os responsáveis pela segurança privada ou mesmo pública são incapazes de frustrar as ações delituosas.
 

A criminalidade tomou proporções inimagináveis e só alimenta o espetáculo midiático diário. A orquestração da mídia se presta a distorcer a realidade de modo que os espectadores, imbecilizados, se aterrorizem com as notícias durante os segundos de veiculação, mas no intervalo já se esquecem do horror e se divertem com as bobagens propagandísticas.
 

Existe um livro editado pela Zahar, cujo autor, Pierre Bourdieu, acrescenta um dado impactante acerca da importância da televisão no controle social. Ele afirma que 'a televisão é um formidável instrumento de manutenção da ordem simbólica'.


O autor acrescenta: 'Desejaria, então, desmontar uma série de mecanismos que fazem com que a televisão exerça uma forma particularmente perniciosa de violência simbólica. A violência simbólica é uma violência que se exerce com a cumplicidade tácita dos que sofrem e também, com frequência, dos que a exercem, na medida em que uns e outros são inconscientes de exercê-la ou de sofre-la'.
 

A suposta ordem que a sociedade acredita que existe é mantida pela batuta do 'grande maestro midiático nacional'. Os ilusionistas midiáticos obedecem a um princípio fundamental que é o de atrair a atenção do público para uma coisa diferente do que realmente está acontecendo.
 

De fato, coisas importantes que deveriam ser veiculadas para esclarecer a população são censuradas e o acesso ao que realmente interessa é omitido. A disseminação das drogas é um desses fatores desencadeantes de violência, porém o enfoque da grande mídia se presta a distrair a atenção do público. Nada que se veicula se presta à reflexão sobre as causas e os efeitos dessa pandemia que avassala e destrói grande parte da juventude brasileira.
Infelizmente, se 'oculta mostrando'. O propósito não é o da informação pura e simples, mas, sobretudo do sensacionalismo oco, da dramatização passageira, do exagero imbecilizante.
 

Assim, qualquer tentativa de demonstração do que realmente está acontecendo, se transforma em um grande elefante branco. Algo muito trabalhoso de se entender e que é melhor optar pela banalização e uniformização das idéias. Como o medíocre tem de ser bem pintado, dizia Flaubert, o banal é o que importa. Diz um filósofo que 'é mais fácil morrer do que pensar', por isso e a cada dia a capacidade crítica vai diminuindo e o nivelamento de mentes ganhando força e vigor. 'A televisão torna-se um instrumento de criação da realidade'. Sua finalidade é mudar o eixo do entendimento e da percepção.

Nadir Ap. Cabral Bernardino

Professora

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