Voltar à simplicidade


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Nestes tempos modernos nos escondemos atrás de muros altos na suposta idéia de que estamos protegidos. Foi a audácia daquele galho de rosas vermelhas, que avançava grade afora e se exibia majestoso, desconsiderando os perigos de sua natureza frágil, que me chamou a atenção.


A casa antiga ainda não havia aderido à obrigatoriedade de encarcerar seus donos em muralhas e por isso oferecia a quem passava o deleite de uma explosão de cores desordenadas: madressilvas, amores-perfeitos, dálias risonhas, onze-horas pontualíssimas, uma touceira de erva cidreira, um vaso mal tratado de comigo-ninguém- pode, lírios-da-paz misturados às plantas rasteiras, um pouco de tudo, numa alegria de beija-flor. E alongando-se por entre esta confusão de matizes, o galho com duas rosas.


Fiquei estática. Pude encher os olhos diante deste fascinante espetáculo.


 Lembrou-me o tempo de quando quase todas as casas eram assim. Não tinha o que esconder, havia apenas orgulhos das vaidosas donas de casa que trocavam mudas de plantas, receitas, conversa... Não havia medo nos olhares, como o que eu senti ao ser observada pela mulher que correu à porta perguntando o que eu queria.


Não, eu não queria nada, só olhar e lembrar-me de um tempo bom.


Provavelmente haverá muro cercando este jardim quando eu passar de novo. O progresso nos proporcionou mais competência e eficácia na realização de pequenas e grandes tarefas; entretanto, nos tornamos mais individualistas e sem espontaneidade. Que pena!!!


A rosa resistiu. Pelo menos por hoje pude admirá-la no jardim alheio. Amanhã será outra história.

 

Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português

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