Efetivamente não recebi do Criador qualquer dom ou pendor musical. Sou aquilo que se costuma chamar de um grandioso desafinado. Tive a certeza, ainda no primário, cursado no competente Grupo Escolar "Melo Viana", em Cássia (MG), que não conseguiria estabelecer a menor intimidade com a música.
Dona Lucy, professora da matéria, insistiu comigo para que aprendesse a cantar com certa desenvoltura e – pelo menos – com um pouco de afinação o Hino Nacional Brasileiro, o Hino à Bandeira e o Hino da Independência. Aprendi, com a minha insistência, a letra dos hinos, porém continuei cantando-os desafinadamente.
Tentei também, certa vez, aprender a tocar violão mas logo desisti do plano. Vislumbrei e convenci-me de minha absoluta falta de jeito.
No entanto, alto lá! Não ter afinação para cantar; não saber sequer dedilhar um violão, não significa, obviamente, não gostar de música. Sim. Embora a maioria não acredite, 'no peito de um desafinado também bate um coração', como dizia João Gilberto.
Aprecio a boa música e não é com moderação. Gosto de todos os gêneros musicais desde que haja qualidade. Transito do erudito ao popular, do rock ao sertanejo. De Nelson Gonçalves a Raul Seixas; de Chico Buarque a Zeca Pagodinho, sem qualquer constrangimento. Reconheço porém e infelizmente, que o que se tem produzido atualmente no Brasil em termos musicais, com raras exceções, é coisa de baixíssima qualidade.
A música hoje parece que é feita para não ficar, não permanecer no imaginário popular. Uma música ganha repercussão nas rádios e na televisão; dai, porém pouquíssimo tempo ninguém mais se lembra da música, da letra e muito menos do compositor. E assim vão se sucedendo os 'sucessos do momento', verdadeiros enlatados musicais de qualidade bastante duvidosa.
Fato interessante é o de que as rádios com maior audiência são exatamente aquelas que reservam espaço na sua programação para os 'sucessos do passado'. Músicas de qualidade e que por isso ficaram eternizadas.
Se a música de hoje não é das melhores, o mesmo não se pode dizer em relação aos aparelhos eletrônicos disponíveis no mercado. São minúsculos mas com grande qualidade de som e grande capacidade de memorização das melodias.
Assim e de qualquer forma, não há como não reconhecer que a boa música é companheira fiel e ameniza a solidão de muitos, pois, como bem ponderou o falecido jornalista e político Artur da Távola, 'A música é vida interior; e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão'.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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